sábado, 12 de dezembro de 2009

Anonimato

Talvez por ter sido criado em cidade pequena, com família grande e 'influente', eu sempre fui o filho do doutor este e da professora aquela, o irmão de tal e tal, o cunhado de não sei quem, sobrinho do outro lá, primo daquele ali. Era como se todo mundo no meu mundinho soubesse da minha existência; eu me sentia exposto.
É claro que todas as confusões na minha cabeça, e quanta confusão havia!, eu me acreditava vigiado só de receber um oi na rua. Durante um tempo que eu só queria ser invisível, eu não era popular, mas era conhecido.
O assunto vem de eu estar repensando esse blog nesses tempos. Estas publicações me fazem questionar a incoerência entre querer aproveitar a solidão do anonimato e a massagem no ego de ter alguém que lê essas bobagens todas aqui.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Diálogos: a introdução

"Tout être qui connaît un enfer durable ou passager peut, pour l'affronter, recourir à la technique mentale la plus gratifiante qui soit : se raconter une histoire. [...] Toute misère comporte son emblème et son héroïsme. L'infortuné qui peut remplir sa poitrine d'un souffle de grandeur redresse la tête et ne se trouve plus à plaindre."
Amélie Nothomb - Acide sulfurique
- Me explica de uma vez essa história então. Como é que funcionam esses diálogos na sua cabeça?
Em épocas de maior proximidade física, caminhava com o outro pelo mesmo percurso de sempre, volta após volta. O silêncio o traía, estava sempre a pensar, imaginar conversas que talvez nunca existiriam. Era como se sua boca formasse as sílabas, as palavras, as frases, mas elas se recusavam a sair. É claro que havia um pouco de decisão nesta recusa, mas já havia perdido o controle da própria recusa, e não conseguia mais evitar o mutismo.
- Não é nada tão complicado - começou a responder, tentando convencer a si próprio mais do que convencer o outro. Quando eu estou pensando, normalmente eu me pego pensando numa conversa com alguém, e fico imaginando essa conversa.
- Lembrando de uma conversa que você já teve com uma pessoa qualquer, você quer dizer?
- Não, não é lembrança. Eu imagino como se desenrolaria um bate-papo com alguém.
Na sua mente era uma falação constante. Papo furado, de um tipo despretensioso, que vai andando meio que sem rumo, tropeçando e caindo em outro assunto. Às vezes virava papo sério, desses a evitar a todo custo e que terminam com alguém triste. E discutiam também o silêncio, essa mesma discussão de agora ao telefone, e o primeiro defendia-se também em pensamento, e o raciocínio era que as palavras eram supérfluas quando se conhece alguém tão bem. Era uma péssima desculpa, e sabia disso, mas na sua cabeça o outro concordava.
- Daí no seu mundo das ideias você fala algo pra essa pessoa, e inventa o que ela te diria de volta?
- Não é um exercício de invenção. Eu me imagino trocando uma idéia com meus amigos, com as pessoas do trabalho, com a minha família. Daí eu já sei um pouco o que as pessoas vão dizer - mordeu o lábio para tentar corrigir a frase, mas já era tarde demais, e sorriu ao ver-se pego no argumento ruim.
- Somos todos tão previsíveis à sua volta?
Mas andando em silêncio o outro não concordava. E também não concordava com a pressa, que às vezes convém ter, como dizia o primeiro. E com a diferença de opinião e a diferença de passo se distanciaram. No mesmo circuito fechado, eventualmente se cruzavam, e se deliciavam com o encontro, e se separavam de novo, cada vez por mais tempo.
- Você cria mentalmente uma conversa com uma outra pessoa, até quando ela está do seu lado de verdade? - o outro continuou, sem esperar resposta para a última pergunta.
- Sim, às vezes acontece. E o que eu quis dizer antes é que quando se conhece alguém não é difícil saber como um papo fluiria.
- E mesmo assim você precisa encenar os diálogos antes de tê-los?
- Eu não fico praticando o que vou falar. São conversas que talvez um dia aconteçam, e neste caso, provavelmente serão diferentes do que havia se passado nos meus pensamentos. Isso não é tão anormal assim, já foi até documentado por aí, li um texto uma vez, algo sobre um palhaço qualquer, azul, sei lá, nem lembro...
Ele tinha parado de ouvir, e interrompeu:
- Você já teve um diálogo desses comigo em que discutíamos isso?
Hoje já quase não se veem, mas eventualmente trocam cordialidades pelo telefone, cada um no seu monólogo, às vezes quebrado por algum momento de nostalgia. Despediram-se, e ao desligar o primeiro sabia que toda a conversa já havia se passado na sua imaginação muito antes. O que não trazia conforto, só mais melancolia.

domingo, 25 de outubro de 2009

A semana em Montréal

A luta política das línguas ressurge de tempos em tempos. A famosíssima Lei 101 (La charte de la langue française) estabeleceu em 1977 que a única língua oficial no Québec é o francês. Nas escolas públicas, há uma longa lista de requisitos que um aluno deve possuir para ter o direito de ser educado em inglês. Com isso, muitos pais ficaram descontentes (alguns brasileiros com filhos que eu conheci morando aqui nem admitiam a hipótese do filho não ser educado em inglês), e alguns deles passaram a usar uma brecha jurídica para escapar da situação: os pais matriculavam os filhos em escolas particulares em inglês por alguns meses, e garantiam o direito que a criança tem de terminar de receber sua educação na mesma língua em que começou. Direito assegurado, os filhos eram matriculados no sistema público. Em 2004 veio a lei 104 para fechar essa brecha. Mas essa semana a Suprema Corte canadense declarou a lei 104 inconstitucional, e o Québec vai ter que obedecer e mudá-la, provavelmente tentando chegar num acordo no meio termo.
Eu estou do lado do Québec. A língua oficial é o francês e pronto, mas é difícil acomodar os anglófonos sem deixar alguns de fora, e muitos infelizes. A polêmica continua.

* * *

George Bush deu uma passadinha por Montréal, e causou muita comoção. Ele deu uma palestra no Hotel Reine Elizabeth, do lado do meu trabalho, e havia ruas interditadas, polícia pra todos os lados, e previsão de distúrbios. No escritório, recebemos um e-mail avisando que as manifestações poderiam atrapalhar o trabalho, e eu até fiquei tentado de ir lá jogar um sapato nele, mas achei melhor ficar quietinho na minha.

* * *

E essa semana nevou! Eu nunca paro de me impressionar como as pessoas ainda se assustam com isso. É como se durante o verão a população se esquecesse que o inverno existe, que ele é longo, e que a neve é abundante. Alguns parecem esperar que pularíamos o frio todo e chegaríamos magicamente na primavera. No trabalho, ficou um bando gente nas janelas, bebericando café, e contemplando o fenômeno.
Rapidinho mandei uma mensagem de texto pra Gabi, e nós devíamos ser os únicos contentes com a situação. A neve quer dizer que daqui a pouco vamos esquiar!

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Tango

Eu e a Gabi, dançando tango. Outras fotos nossas aqui.
Domingo de chuva, frio, vento, e lá vamos eu e Gabi cruzar a cidade para irmos para o nosso ensaio de tango. Desde que começamos o segundo nível, e que temos direito a três horas de prática aos domingos para complementarmos a aula na segunda, sempre aparece alguma desculpa, e a gente não vai. Desta vez, desculpa não faltava, mas com medo de fazermos feio ao dançar com outras pessoas na aula, decidimos nos obrigar.
Mas como desgraça pouca é bobagem, o ensaio daquele dia havia sido cancelado, e obviamente que só descobrimos isso chegando lá. Gordos que somos, precisávamos de algo para nos alegrar: para não perder a viagem, demos uma passadinha no Yeh! para tomar um frozen yogourt e voltar para casa de estomâgo cheio, consciência pesada, mas alma lavada.

Adivinha qual pote é de quem.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Ponto de vista


Place Ville Marie [mapa], no meio da névoa matinal que andava se instalando nesses dias chuvosos e de frio.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Dia ruim...


Bad day, looking for a way,
home, looking for the great escape.
Gets in his car and drives away,
far from all the things that we are.
Puts on a smile and breathes it in
and breathes it out, he says,
bye bye bye to all of the noise.
Oh, he says, bye bye bye to all of the noise.

Hey child, things are looking down.
That’s okay, you don’t need to win anyways.
Don’t be afraid, just eat up all the gray
and it will fade all away.
Don’t let yourself fall down.

Bad day, looking for the great escape.
He says, bad day, looking for the great escape.
On a bad day, looking for the great escape,
the great escape.
Patrick Watson - The Great Scape

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Reunião

Este ano tentei usar a mesma desculpa do ano passado:
- Não posso ir, tenho aula na faculdade.
Mas dessa vez houve a réplica que eu não esperava:
- Nós vamos marcar então para um dia em que você possa ir.
Aí não teve como escapar, né? E aos poucos fui aceitando a idéia de ter que ir à reunião de condomínio aqui do meu prédio, mas continuei odiando-a com a mesma intensidade.
Afinal de contas, o que há a se discutir? São só quatro os apartamentos; não temos elevador, e quase não temos área comum; não há empregados do condomínio; alguém já paga a conta de eletricidade relativa à iluminação e caleifação dos corredores e escadas, e cobra dos outros sua justa parte. Eu já queria dar um cheque e acabar com isso, sem ter que fazer social, sorrir, ou fazer de conta que sou simpático.
Mas daí fui lá descobrir. Obviamente que o vizinho tinha me falado o horário errado, e eu sou o primeiro a chegar na casa dele, com meia hora de antecedência. É importante ressaltar que nunca cruzo com nenhuma dessas pessoas, então nem a cara deles eu conhecia quase. E daí começa aquele papinho de elevador: o que você acha da área, o que você faz da vida... Dois minutos depois o silêncio desagradável motiva o meu anfitrião a ir buscar os outros vizinhos, e eu respiro aliviado.
A única emoção em pauta foi que eles queriam pintar as paredes das escadas. Com um custo previsto de $1200. Eu quase engasguei no meu copo d'água, e o vizinho que veio com a idéia já veio se explicando: a pintura atual está feia, é de baixa qualidade; mão-de-obra e material ficariam em $600 cada. Ainda não consegui desengasgar.
Trezentas pilas para cada um para trocar o branco das escadas por outro branco mais chique? Tive que me posicionar, e foi o único momento em que falei, então as pessoas me ouviram: eu acho muito caro, e prefiro esperar um pouco para fazermos esse investimento! De onde essas pessoas acham que eu posso tirar tanta grana pra tal inutilidade? Ficou combinado então que na primavera nós voltaríamos a nos falar. Preciso achar outra desculpa até lá, ou então vender o meu apartamento.
No final das contas não foi tão ruim assim, as pessoas se esforçavam até mais do que eu para serem simpáticas, fiquei até impressionado. E na hora de ir embora, um outro cara estava mais ansioso do que eu para sair de lá, e já estava abrindo na porta e mandando um 'bonne soirée' pra todo mundo antes mesmo de eu poder cumprimentar o anfitrião.
Até ano que vem, pensei baixo.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Canal

Por um curto tempo, tive uma bicicleta neste verão. Que não durou muito mais que um mês: estacionada na frente da casa da Nadia enquanto jantávamos uma noite, alguém quebrou o cadeado e levou ela embora. Todos me apareceram com uma história de roubo de alguma magrela, e passei a acreditar que Montréal é a meca dos ladrões biciclísticos. Lição aprendida, cuidados serão redobrados da próxima vez, mas resolvi não comprar uma outra até o verão que vem, pois os tempos não estão para tantos luxos, nem são os verões longos o suficiente.
Durante as poucas semanas que pedalei até o trabalho, de segunda à sexta, sob qualquer interpérie que o tempo nos trazia, já me apaixonei por esse modo de transporte. Montréal é plana como uma panqueca, com ciclovias para todos os lados, e motoristas até que bem educados. Para completar, estou a dois minutos do Canal Lachine, cuja ciclovia que me leva até o centro, sob árvores, ao lado da água, sem nem ter que passar por ruas, semáforos, ou dividir espaço com carros.
Estas são algumas fotos do meu caminho matinal, ao longo do Canal. Ou no Picasa.


segunda-feira, 27 de julho de 2009

Profecia

Final de semana passado estava eu em Nova Iorque, parado numa esquina e olhando o trânsito da Quinta Avenida, sem intenção de cruzar, só pensando na vida enquanto esperava as meninas passarem por mais uma loja de roupas. Neste estado de inatenção eu demorei para perceber que uma mulher estava parada do meu lado, olhando fixamente para a minha cara:
- Eu sou vidente. E vejo novos começos na sua vida.
- Mas não há sempre novos começos na vida de todo mundo?
- Ultimamente, na sua vida, não. Mas continue pensando positivo.
E atravessou a rua.
Talvez tenha sido o (re)começo do blog que ela tenha profetizado, mas eu estou achando que não... Mas enquanto nada se confirma, vamos escutando um fado e vendo algumas fotos da viagem.

domingo, 5 de julho de 2009

Eu não quero trabalhar!

Depois de duas semanas cortadas ao meio por causa de dois feriados na quarta-feira, a previsão de cinco dias de trabalho consecutivos já começa a me deprimir. Ainda bem que aqui não passa Fantástico, senão a musiquinha seria suficiente para me fazer pular da ponte Jacques Cartier.
Enquanto isso, me agarro à ideia de que os próximos finais de semana serão interessantes: um chalé alugado no meio da floresta em um grupo de 10 amigos, e um bate-e-volta de carro pra Nova Iorque uma semana depois. No meio de tudo isso, o início das minhas aulas de tango!
E para continuar no clima, Pink Martini cantando Édith Piaf:

terça-feira, 30 de junho de 2009

Jazz!

Stevie Wonder hoje na abertura do Festival de Jazz em Montréal!



terça-feira, 14 de abril de 2009

Show

A melhor parte dos shows de calouros como American Idol e Britain's Got Talent é sem dúvida as audiências preliminares em que candidatos sem noção se colocam no palco para se fazer de bobos para os jurados, para a platéia, e para a audiência que coloca estes programas no topo do ibope. Na busca pela fama, pelo reconhecimento, por um pouco de atenção, ou pelo calorzinho breve do holofote, vale tudo.
E hoje eu me deparo com essa performance. O sotaque britânico eu acho um pouco chato de entender, mas as expressões faciais e as reações dos presentes são muito claras.



É muito bom se surpreender. E melhor ainda é questionar os nossos pré-julgamentos, sempre tão instantâneos.
Para quem quiser ir cantando junto, a letra:
I dreamed a dream in time gone by
When hope was high and life worth living
I dreamed that love would never die
I dreamed that God would be forgiving

Then I was young and unafraid
And dreams were made and used and wasted
There was no ransom to be paid
No song unsung, no wine untasted

But the tigers come at night
With their voices soft as thunder
As they tear your hope apart
And they turn your dream to shame

And still I dream he'll come to me
That we will live the years together
But there are dreams that cannot be
And there are storms we cannot weather

I had a dream my life would be
So different from this hell I'm living
So different now from what it seemed
Now life has killed the dream I dreamed.
"I dreamed a dream", do musical Les Misérables

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Ressurreição



Estou indo passar a Páscoa ali em Toronto, e já volto. Para o blog inclusive. Para a vida também. Afinal, é tempo de renascer e ressuscitar. Enquanto isso, fiquem com a nossa programação musical pascoal.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Operação

Eu comecei a usar óculos aos 6 anos, quando a tia da primeira série percebeu que eu não estava dando conta de ler a lousa depois de ter sido mandado para a última fileira da classe por conta da minha estatura. E desde cedo eu já cogitava a possibilidade de fazer a cirurgia de correção da miopia e astigmatismo. No começo, meu oftalmo me dizia que era necessário esperar até os 18 anos, pois a minha visão continuaria diminuindo enquanto eu estivesse crescendo. Depois que parei de crescer, ainda era preciso esperar um pouquinho mais, pois o meu grau ainda não havia estabilizado, e aumentava ou diminuia um pouquinho entre cada visita.
Nos últimos anos eu tinha meio que esquecido dessa história, talvez por causa da minha boa adaptação com lentes de contato. Mas de uns tempos para cá eu tenho andado com dificuldade de trabalhar com as lentes, meus olhos ficam muito secos na frente do computador, e eu não enxergo direito. Ou seja, lentes de contato só eventualmente, ou eventos sociais.
Mas semana passada eu revoltei, e fui numa clínica de cirurgia de olhos para avaliar a possibilidade de uma intervenção que pudesse corrigir a merda toda. E as notícias não foram as melhores.
Sim, eu posso operar, só que a lista de poréns é grande, tudo por causa do meu grau ser muito alto. Primeiro, a cirurgia custaria $3500, um dinheiro que não tenho. Segundo, que é provável que a minha visão regrida um pouco depois da cirurgia, ou seja, é quase impossível que eu tenha visão perfeita, mas não é possível avaliar o quanto de imperfeição vai voltar: talvez eu nem precise de óculos, talvez eu precise deles só para ler ou trabalhar no computador, ou talvez continue precisando deles o tempo todo. O benefício é que meu grau certamente vai diminuir, e com ele, a minha dependência do óculos (hoje eu teria problemas em voltar para casa com transporte público se eu perdesse meus óculos em algum lugar, por exemplo - esse é o grau da minha cegueira).
Mas na verdade o que mais me impossibilita são as dificuldades do pós-operatório. Nem tanto a dor, que alguns pacientes dizem ser a pior dor da vida deles por alguns dias após a cirurgia. Nem tanto o fato de eu não poder trabalhar por uns 10 dias. O problema, na verdade, é que eu viraria um vegetal por uns 3 ou 4 dias após a cirurgia, com dificuldades para abrir os olhos.
E numa situação dessas, eu só posso pensar na minha mãe por perto. Mas com ela lá no Brasil, essa empreitada começa a complicar demais. Não sei se conseguiria pedir ajuda de mais alguém que não ela. Afinal, uma vez nas trevas, é só família que nos estende a mão.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Performance

Essa é aquela época do ano que os todos os empregados odeiam: avaliação de performance! Acho que o meu lado engenheiro não consegue aceitar a validade de todos esses processos que se colocam em prática para finalmente definir quem é bom e quem não é. Eu acho que a teoria é muito boa, e dá até pra acreditar que funciona. Na empresa onde trabalho, eu faço uma auto-avaliação e peço para três colegas me avaliarem. Minha gerente junta essas informações com a opinião dela, e desse resultado sai o quanto vou receber de aumento e de quanto vai ser o meu bônus.
Alguns agravantes: primeiro, todos sabemos que esse ano foi muito ruim para os negócios. Mas sem essa desculpa de crise, pois a indústria de video-games não sofre com isso não (não é difícil de imaginar que uma família de dois adultos e duas crianças gaste uns 200 dólares numa noite para sair para comer fora e ir ao cinema; video-game fica barato comparativamente). Então, já estou sabendo que o aumento vai ser quase zero, e o bônus um picolé de limão e a dádiva de continuar empregado.
Outra coisa é que me parece que ninguém sobre na hierarquia aqui onde trabalho. Eles estão sempre contratando gente de fora, enquanto nós, do lado do bebedouro ou da máquina de café, concluímos que alguém de dentro poderia fazer o trabalho do novato, e o faria com prazer! É muito mais cômodo para o gerencimanto mexer o menos possível nas áreas. Tirar alguém daqui para fazer algo mais útil ali é a história de descobrir um santo para cobrir outro, e todo mundo quer evitar a fadiga.
Por último, minha gerente senta lá longe, está sempre em reuniões, e portanto raramente olha para a minha cara. Apesar de eu ter outras pessoas para quem reporto e com quem trabalho diariamente, não são eles que decidem meus aumentos, bônus, férias, nem nada disso. A opinião dela fica subjetiva demais, e sua decisão não tem como também não ser.
Mas em épocas de desemprego (o gerente que me avaliou ano passado foi demitido, por exemplo - será justiça divina?) a gente não pode perder a chance de se vender um pouquinho.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Quaresma

Embora aqui no Canadá o Carnaval não seja feriado, andei refletindo bastante agora por esses dias, e hoje, quarta-feira de cinzas, dei início ao meu processo de penitência para a quaresma que começa: academia e regime!
Já fazia mais de 6 meses que eu tinha deixado o meu contrato na academia expirar, e ia sempre inventando novas desculpas para não renová-lo. Mas depois de muita comilança nestes útimos tempos (só neste final de semana foi Juliette & Chocolat na sexta, fondue de queijo e de chocolate na casa dos meninos no sábado, e carne assada na casa das meninas no domingo), finalmente compreendi que já estava na hora de eu começar a me esforçar em direção ao mundo com menos de mim.
Não sei se acredito em expiação dos pecados, mas se faz bem para o corpo, deve fazer bem para a alma, né? Espero que à minha volta meu mau humor não afete muita gente!
Quanto tempo será que dura? Alguma aposta?

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Borá

O início do povoamento de Borá deu-se por volta de 1918 quando os membros da família Vedovatti, atravessando as águas do Borá, iam a Sapezal, cidade em que faziam seu comércio de gêneros alimentícios. Em 1919 chegaram as famílias portuguesas de Manoel Antônio de Souza, Antônio Caldas e Antônio Troncoso, construindo suas residências no acampamento dos engenheiros, localizado na fazenda de propriedade de Dionízio Zirondi. A eles, o Município deve a abertura das primeiras picadas ligando-o ao Distrito de Sapezal e ao Município de Paraguaçu Paulista. Em fins de 1923, José da Costa Pinto doou um alqueire de suas terras que se situava no centro das propriedades, para que fosse erguida a Capela Santo Antônio de Borá, conforme ficou sendo conhecida a localidade.
O Distrito foi criado com a denominação de Borá por Decreto-lei em 1934, no Município de Paraguaçu (também por Decretos-leis Estaduais, o Município de Paraguaçu passou a denominar-se Araguaçu em 1944 e depois Paraguaçu Paulista em 1948). Foi elevado à categoria de município com a denominação de Borá, por Lei Estadual em 1964, desmembrado de Paraguaçu Paulista, e constituído do Distrito sede. Sua instalação se verificou no dia 31 de março de 1965.
Borá é a menor cidade do Brasil, e sua fama alcançou o ápice no começo dos anos 90 quando uma reportagem para o Fantástico levou a Glória Maria ao local. A infâmia também me atingiu, quando, em uma aula do primeiro ano de faculdade, caí na besteira de mencionar que Borá já havia sido distrito da minha cidade-natal. Com as piadas distorcendo levemente minha frase, nunca mais perdi o título de morador de lá.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Sono

Alguém mais tem a impressão de que com cada vez mais coisa para fazer, dormir se torna uma perda de tempo?



Her Morning Elegance, de Oren Lavie

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Economia

Já que o assunto é crise, falemos então da minha saúde financeira. De novo retornando às mentirinhas que conto ao meu pai, devo admitir que o meu rendimento mensal não tem tanta folga nem me permite tantos luxos quanto eu lhe faço crer. E embora a entrada de dinheiro não tenha mudado no último ano e meio, a sua saída se faz em quantias sempre mais sumptuosas desde o meio do ano passado por conta do meu apartamento que ainda estou mobiliando.
E daí a gente vai cortando onde pode e economizando quando dá, tipo levar almoço de casa ao invés de comer fora, ou então já sair bêbado de casa ao ir para bares aos finais de semana. Mas eventualmente cheguei à conclusão de que deveria fazer com que a crise trabalhe a meu favor. Já que o negócio tá feio, o povo que está recebendo meu rico dinheirinho deve se esforçar mais para me manter como cliente, não é?
Com issa ideia diabólica em mente, liguei para a minha operadora de celular, e disse que recebi uma proposta mais interessante de uma concorrente, e que para evitar a perda do meu negócio eles deveriam me dar mais minutos, mas ainda assim me cobrar menos. Eu não estava esperando muita coisa, mas aparentemente o atendente já devia estar acostumado a esse tipo de discurso: ele me disse que com o meu plano eu tinha direito a 100 minutos por mês, mais minutos ilimitados aos finais de semana e às noites, a 37$; e que ele poderia não mexer nos finais de semana e noites, dobrar o número de minutos para 200 nos outros horários, e cortar a tarifa básica para 17$!
É claro que sempre tem uma pegadinha, a esmola nunca é tão grande: eu me preciso me comprometer a assinar um outro contrato com essas condições por 3 anos. Mas no final, a economia é maior que o sacrifício.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Crise

Toda semana no telefone, mais preocupado comigo do que com a situação mundial, meu pai me pergunta se a crise chegou no Canadá. E eu sempre respondo que não muito, que embora estejamos perto do epicentro da confusão toda, não são tantos assim os efeitos que nos atingem, e seus estragos não são assim tão enormes: desemprego, desvalorização no mercado imobiliário, reestruturações, aumento da dívida do governo, baixo crescimento econômico. Nada de muito paupável, pelo menos para mim.
Ou na verdade, nem tanto. Em Dezembro, a EA soltou um comunicado à imprensa informando que iniciaria um processo de demissão de 10% de sua força-de-trabalho. Aqui em Montréal, os bam-bam-bans se apressaram em convocar reuniões para garantir que estavam contentes com o trabalho no nosso estúdio, que a nossa área não seria tão afetada, que estávamos fazendo um bom trabalho, e tudo mais.
As ações, porém, não foram muito condizentes com o discurso: desde o começo do ano, já foram nove os demitidos. Inclusive meu chefe, que ficou sabendo da decisão ao voltar das licença-paternidade que o nascimento do seu terceiro filho lhe deu direito.
Inclusive, os procedimentos de desligação merecem um comentário extra: por lidarmos com informações sensíveis, que poderiam ser vendidas aos concorrentes, ou então manipuladas de forma a causar prejuízos à empresa, os funcionários não têm direito mais de acessar seus computadores a partir do momento em que são comunicados da demissão. Alguém do RH os acompanha até suas mesas para que peguem os seus pertences, recolhe os cartões de acesso, e depois os leva até a porta. Mais tarde durante o dia, um diretor envia um email comunicando que tal e tal funcionário não estão mais entre nós, e os agradece pelos serviços prestados.
Será que eu estou enganando a mim e ao meu pai sobre quão protegidos realmente estamos ao norte do 49º paralelo?

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Restaurantes

Dica para quem está em Montréal: até o final do mês, oito restaurantes na região da Velha Montréal com cardápios a preços fixos e mais acessíveis que de costume. Vide site.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Mania

Faz dias que são da sucessão presidencial estado-unidense todas as manchetes de todos os jornais. O novo presidente está por todo o lado na Internet. Hoje no trabalho ele foi o assunto em torno do bebedouro. Na hora do almoço, pessoas se amontoavam em frente a vitrines de lojas de eletrônicos para ver a cerimônia de posse.
E eu, de saco cheio dessa babação toda, mas ainda assim altamente influenciável por ela, resolvi seguir um conselho que a Ester me deu há muitos e muitos anos, quando falávamos sobre filosofia: para entender as idéias de alguém, é sempre melhor ler o que esse alguém escreveu do que o que outros escreveram sobre ele. Na minha cabeceira agora está The audacity of hope, de Barack Obama.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Ano-Novo

É só depois de uma semana depois de ter pousado em Montréal que meu cérebro recebe a mensagem vinda dos meus pés de que já estamos todos em solo firme, que as férias já acabaram e 2009 já começou. Semana passada foi uma luta constante: frio recorde em Montréal, demissões no trabalho por conta da crise, trabalhos para entregar na universidade. Todos tópicos já com algumas idéias semi-prontas para serem publicadas aqui, será que um dia eu dou conta? E neste período de retro-alimentação, meio perdido, caminhando fui, sei nem como. Já adaptado ao fuso e aos parafusos, hoje acordei mais bem situado.
Comecemos devagar portanto. Que tal um vídeo? Um curta-metragem? Romântico? Bonitinho? Que ótima idéia! Aproveitem:



sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Indo

O ano de 2008 está quase acabando. Saindo hoje da casa dos meus pais, escala em Campinas, outra em São Paulo, outra em Nova Iorque, e se o Senhor permitir, estou domingo, dia 11, véspera de ano-novo, em Montréal. Vambora!