sábado, 2 de fevereiro de 2008

Entrevista

Nesta vida navegante, de link em link vou passeando por blogs alheios para ver o que se passa à minha volta, e caí no Coolopolis, um site anglófono daqui de Montréal, que citou os 60 anos da adoção da flor de lis como bandeira do Québec. Mas por conta de um erro tipográfico, ele citou que eram 50 anos que ela comemorava, e eu mandei um comentário para que a imprecisão fosse sanada. Na verdade eu me compadeci do autor, pois eu havia cometido o mesmo erro no ano passado, quando mencionei o então aniversário de 59 anos da bandeira, que ficou em meu blog por algum tempo como dez anos a menos.
Mais tarde naquele mesmo dia, recebi um comentário em um dos meus posts, onde o tal autor do então já corrigido blog dizia querer me fazer uma proposição, e me deixou o seu telefone. Estranho o suficiente, ele me escreveu em português, mesmo que muito falho, o que me deixou com ainda mais uma pulga atrás de orelha e um comichão para ligar e ver do que se tratava.
Quando liguei, ele reconheceu meu nome, e se identificou como um colunista do jornal The Montréal Gazette, disse que já havia visitado o Brasil, e que ficou honrado com visitas brasileiras em seu site, e explicou que a proposta se tratava de uma entrevista que ele queria fazer comigo. Ao dizer que nunca havia lido a tal gazeta (o que ele achou MUITO estranho!!!), e indagar o motivo pelo qual os leitores do jornal se interessariam em algo que eu teria a dizer, ele tentou clarificar a minha desconfiança, e explicou que a coluna se tratava de uma 'home interview', onde o entrevistado recebe em sua casa o entrevistador, que lhe indaga sobre a localização do imóvel, a vizinhança, a decoração, a disposição dos móveis, a cor das paredes. Segundo ele, seus alvos semanais não são escolhidos com método algum, e até transeuntes nas ruas ele interpela para propor essa bobagem toda.
Meu ponto de interrogação imaginário só aumentou com a explicação, e minha mente passou rapidamente pela inevitável dúvida sobre a existência da vontade de alguém no mundo de ler essas coisas sobre um aleatório qualquer. E em um hiperlink mental fui imeditamente levado a imaginar como explicar qualquer um desses tópicos sobre um lugar onde não escolhi absolutamente coisa alguma, embora seja esta a minha casa, e onde eu me sinto em casa.
O poster da Playboy na entrada, o buraco na parede escondido por um lençol hippie, o teto do banheiro em estado deplorável, a porta da geladeira que precisa de uma ajudinha para se manter fechada, a mesa da copa em forma de amendoim, as cadeiras com o encosto faltando, o cantinho inacessível pela vassoura, as manchas na parede do meu quarto, tudo já estava aqui quando cheguei, e nada dessas coisas traz charme algum ao lugar, mas também não me incomodam, pois eu adoro o povo com quem eu moro, e que em momentos difíceis aqui só faltou que me carregassem nas costas. Mas como explicar isso para os leitores do jornal, e a pergunta que ainda me assola: quem se importa? Tive que recusar a proposta.
Embora se saiba que qualquer tipo de publicidade seja bom, achei que o meu refúgio do mundo exterior, e tudo que faz dele estranho e especial, não deveria ser tornado público.

3 comentários:

pedrinha disse...

Está certíssimo Daniel.. o lugar de refúgio, descanso, onde recarregamos as energias e temos momentos mto particulares nem sempre deve ser aberto ao público. Bjo aqui do Brasil pra vc

pedrinha disse...

Ops.. te chamei de Daniel.... qdo vc se chama Danilo, sorry!

guerson disse...

Eu lia o Montreal Gazette quando morava em Montreal. É o maior jornal em inglês da cidade... mas não lembro dessa coluna.

acho que vc fez bem...