quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Zoológico

Malhar numa academia cara tem muitas vantagens: banheiros e vestiários sempre impecáveis, aparelhos limpos e em abundância, instrutores sorridentes e disponíveis, uma maçã perfeita me esperando no final do treino. Mas a melhor parte é que tem muito bacana que paga mensalmente um preço bem salgado, mas nunca aparece para ocupar espaço. Mas uma vez a cada dois ou três meses, essas pessoas dão as caras em um evento social que a academia promove: um happy hour, ou em francês, um cinq à sept.
A minha primeira participação em um destes foi um pouco tensa, e muito rápida: enquanto fazia meus 30 minutos habituais de esteira, comecei a sentir lá do mezanino o cheiro de fritura vindo do restaurante lá embaixo. Salivando com o pensamento de uma coxinha, tive que me concentrar para terminar o meu calvário, e no meu caminho para o vestiário passei pelo restaurante, repleto de homens engravatados e mulheres de terninho, todos já mais pra lá do que pra cá, tanto em idade como em sobriedade, olhando à distância para a ralé que suava a camisa nos aparelhos de musculação, como apreciando os animais em um zoológico. Passei direto, e saí de mansinho pela porta de trás, para nem ser percebido.
No evento seguinte, um amigo do trabalho já havia começado a malhar comigo, e entusiasmados pelo álcool e aperitivos gratuitos, criamos coragem e demos uma passada pelo restaurante depois de treinarmos. A clientela era a habitual: homens e mulheres de meia-idade, bebericando vinho branco e tinto em suas taças brilhantes, e fazendo cara de assustados com o esforço dos homens bombados que faziam barra e apreciavam seus músculos no espelho. Pouco ambientados, cansados do treino, suados e de tênis, o álcool subiu rápido, e com os olhares que pareciam sempre nos seguir, e acabamos não conseguindo aproveitar tanto.
Semana passada a história foi diferente. Já conscientes do que nos esperava, nem fizemos plano de malhar, e combinamos de irmos um pouquinho melhor vestidos, para aproveitar a bebedeira sem nos preocuparmos em nos sentir em um ambiente tão hostil.
E eu fico pensando nesse povo que nunca vai na academia, a não ser nestes eventos. Será que eles se sentem bem de pagar e não usar? Ou será que ao exibirem suas rugas e barrigas e pouca força física, são eles que não se sentem ambientados e se preocupam com os olhares à sua volta?

Um comentário:

pedrinha disse...

Eu acho que a segunda opção é a mais viável. Pq vestidos a gente acaba ficando menos exposto a (des)aprovação alheia... O que é uma besteira no final de tudo, pq tem os que malham para ficarem mais belos e os que malham para terem mais saúde, resistência, qualidade de vida.. right?

Eu assumo, corro da academia... mas se pagasse uma, iria lá honrar meu suado dinheiro ;)