segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Sonho

I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character.
Martin Luther King Jr.
Na terceira segunda-feira do mês de Janeiro, os EUA comemoram o dia de Martin Luther King Jr., o reverendo negro americano que iniciou um movimento não violento de luta pelos direitos civis dos negros, vítimas de preconceito em leis federais e estaduais da época.
Aqui no Canadá hoje é dia preto na folhinha, mas como a cabeça está sempre matutando, fiquei pensando em igualdade e preconceito. Embora às vezes algoz, é só quando estou no papel de vítima que percebo que mesmo numa comunidade tão plural como Montréal, muitos querem exaltar a superioridade própria em detrimento da do vizinho.
E isso é algo que me mata de não estar no Brasil, e me acompanhou antes no Canadá, depois na Alemanha, depois na França, e sempre nas minhas caminhadas em torno do globo: eu não consigo deixar de me sentir estrangeiro. Não quero deixar de me sentir brasileiro, mas por que é que eu tenho que ser lembrado constantemente de que não pertenço ao grupo?
Não falar o idioma corrente é sempre o maior problema. Aqui no Québec eles são muito orgulhosos de sua herança francesa, e sempre tiveram que defender arduamente sua língua, seus sete milhões de francófonos apertadinhos no canto do continente de mais de 300 milhões de anglófonos. Depoimentos de amigos originalmente daqui, mas de famílias que falam inglês, reportam o mesmo algumas vezes, me confirmando que não ter nascido aqui é só parte do meu problema.
Outro ponto é que a população imigrante de Montréal é muito onipresente, e inclusive suas gerações seguintes, que mesmo tendo estado aqui a vida toda, ainda são vistos como alienígenas. E muitas dessas comunidades ou não conseguem, ou não querem, se integrar bem, e se perpetuam nos guetos, vivendo, comendo e procriando em sua própria língua e cultura; isso cria ainda mais a impressão de que isso aqui tá tudo dominado.
Mas o pior é perceber este sentimento das pessoas próximas. Muitos já me indagaram o motivo de eu ter vindo para o Canadá, com a conotação 'se você não estava feliz na cidade onde você morava, por que vir para cá e não mudar de cidade simplesmente?'. Ou então a mais clássica frase 'mas você é diferente', no meio de conversas onde se escolhe malhar os imigrantes por todas as desgraças do país.
Da minha experiência, aqui eles têm aversão, quase ojeriza talvez, aos estrangeiros em geral, mas se apegam e têm relações normais com aqueles em particular à sua volta. O que facilita, mas ainda assim é pesado.
Quando não pertencemos a lugar nenhum, é possível se sentir ambientado em qualquer lugar que seja?

4 comentários:

Anônimo disse...

Hi Danilo,

Here's a sample of the Shelter article. It actually includes a nice colour picture. If you know of anybody who would enjoy doing the interview, that would be great fun. It would also be ideal for someone who has something to promote, indirectly, like a small-business owner or a real-estate agent or something.

JD

http://www.canada.com/montrealgazette/news/homefront/story.html?id=44b0d69d-4d5c-4d62-ae70-d3588787bcd7

Jefferson disse...

Ow já pensou em trabalhar em um jornal ou revista. Vc escreve muitoo bemmm poww
saudade de vc
abraçosssssssssssssssssssssssss

guerson disse...

eu acredito que apesar de não pertencemos a lugar nenhum é sim possível se sentir ambientado em qualquer lugar. Eu me sinto super ambientada aqui no Canadá (tanto em Montreal como aqui em Toronto) mas também nunca fui tratada como estrangeira... Pode ser pelo fato de eu ter aprendido ingles quando criança, não sei... se bem que meu espanhol não é 100% e eu também me senti super ambientada em Barcelona no ano que passei por lá. Tinha coisas que me incomodava, a situação para os imigrantes lá é precária, mas como eu não tinha que lidar com isso (não estava trabalhando nem tinha que lidar com a burocracia local), o efeito era minimizado. Mas eu não podia ignorar sua existencia. Mas posso dizer que viveria lá tranquilamente. O marido canadense, apesar de não falar o idioma muito bem, mudaria pra lá de vez amanhã... mas ele é meio doido e não serve de parâmetro...

o único lugar onde não consegui me ambientar foi em Recife, mas essa é outra historia...

Bruno Mendes disse...

Danilo, já parei pra pensar nisso. Apesar de me sentir bem brasileiro na maioria das vezes, eventualmente me sinto estrangeiro aqui: quando a diferença entre a minha opinião e a das outras pessoas é tão grande que eu me sinto fraco demais para convencê-las do contrário. A diferença entre eu me sentir estrangeiro no Brasil ou em outros países é que aqui eu tenho mais intimidade com muitas pessoas e domino o idioma.
Esses dois fatores, no exterior, me tornam mais fraco (ou me fazem sentir-me assim).
Mesmo assim, por exemplo, nos últimos meses na casa do Chui (brasileiro) e da Nicole (alemã), eu me sentia muito bem ambientado: ficava à vontade com os dois, a Nic tem paciência e se esforça em me entender e estava em Stuttgart, lugar que já conhecia. Mas nem preciso dizer que quando os vizinhos chegavam pra visitar eu virava o bixo do mato.
Tenho um conhecido que está mochilando há 2 anos, sem parar (Europa, África e Ásia). Em seus relatos ele diz que por não pertencer mais a nenhum lugar, sente-se capaz de se adaptar e acostumar-se com qualquer lugar. E prevê que se sentirá estranho quando voltar ao Brasil e ter a sensação de já conhecer a situação de não ser oficialmente estrangeiro.
Então a minha opinião é essa: para nos sentirmos ambientados, depende da receptividade das pessoas no lugar e de nossa capacidade de sermos bem "receptíveis", o que depende do carisma, da empatia e da habilidade em expressar-se.