quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Zoológico

Malhar numa academia cara tem muitas vantagens: banheiros e vestiários sempre impecáveis, aparelhos limpos e em abundância, instrutores sorridentes e disponíveis, uma maçã perfeita me esperando no final do treino. Mas a melhor parte é que tem muito bacana que paga mensalmente um preço bem salgado, mas nunca aparece para ocupar espaço. Mas uma vez a cada dois ou três meses, essas pessoas dão as caras em um evento social que a academia promove: um happy hour, ou em francês, um cinq à sept.
A minha primeira participação em um destes foi um pouco tensa, e muito rápida: enquanto fazia meus 30 minutos habituais de esteira, comecei a sentir lá do mezanino o cheiro de fritura vindo do restaurante lá embaixo. Salivando com o pensamento de uma coxinha, tive que me concentrar para terminar o meu calvário, e no meu caminho para o vestiário passei pelo restaurante, repleto de homens engravatados e mulheres de terninho, todos já mais pra lá do que pra cá, tanto em idade como em sobriedade, olhando à distância para a ralé que suava a camisa nos aparelhos de musculação, como apreciando os animais em um zoológico. Passei direto, e saí de mansinho pela porta de trás, para nem ser percebido.
No evento seguinte, um amigo do trabalho já havia começado a malhar comigo, e entusiasmados pelo álcool e aperitivos gratuitos, criamos coragem e demos uma passada pelo restaurante depois de treinarmos. A clientela era a habitual: homens e mulheres de meia-idade, bebericando vinho branco e tinto em suas taças brilhantes, e fazendo cara de assustados com o esforço dos homens bombados que faziam barra e apreciavam seus músculos no espelho. Pouco ambientados, cansados do treino, suados e de tênis, o álcool subiu rápido, e com os olhares que pareciam sempre nos seguir, e acabamos não conseguindo aproveitar tanto.
Semana passada a história foi diferente. Já conscientes do que nos esperava, nem fizemos plano de malhar, e combinamos de irmos um pouquinho melhor vestidos, para aproveitar a bebedeira sem nos preocuparmos em nos sentir em um ambiente tão hostil.
E eu fico pensando nesse povo que nunca vai na academia, a não ser nestes eventos. Será que eles se sentem bem de pagar e não usar? Ou será que ao exibirem suas rugas e barrigas e pouca força física, são eles que não se sentem ambientados e se preocupam com os olhares à sua volta?

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Preço do dinheiro

[...] Pour réglementer le crédit et la monnaie dans l'intérêt de la vie économique de la nation, pour contrôler et protéger la valeur de la monnaie nationale sur les marchés internationaux, pour atténuer, autant que possible par l'action monétaire, les fluctuations du niveau général de la production, du commerce, des prix et de l'emploi et de façon générale pour favoriser la prospérité économique et financière du Canada.
Loi sur la Banque du Canada - Préambule
Em uma economia perfeita de livre mercado, a oferta e a demanda de empréstimos determinam a taxa de juros, ou o preço do dinheiro, como com qualquer outro item. Na prática, a oferta de dinheiro não está só à mercê da vontade do sistema bancário em fornecer empréstimos, pois as taxas de juros são fiscalizadas pelo governo, e determinadas através de seu banco central, por dois motivos:
  • é do governo a tarefa de emitir dinheiro;
  • e em crises, o mercado só se afundaria mais ainda, pois quando o negócio está feio é que as pessoas precisam de crédito, e se o negócio está feio, ninguém quer emprestar nada pra ninguém.
Temos aqui então o Banco do Canadá, ou o equivalente ao Banco Central brasileiro, que cuida, dentre outras coisas, da política monetária, e cujos objetivos podem ser lidos acima em um trecho extraído do preâmbulo da Lei do Banco do Canadá (Bank of Canada Act - Loi sur la Banque du Canada).
Mas isso também não quer dizer que o Banco do Canadá é totalmente dono de seu nariz e têm em mãos os nossos destinos. Embora ele tenha o poder de flutuar a taxa de juros como bem entende melhor para o país, o seu patamar mais baixo é determinado pela taxa de juros nos EUA. Afinal, a América do Norte empresta uma grana danada do mundo inteiro, e se os vizinhos do lado de baixo estão pegando dinheiro e pagando mais juros, por que é que alguém emprestaria dinheiro pra gente aqui?
Então mesmo que a situação no Canadá esteja às mil maravilhas, um diferencial negativo nas taxas Canadá-EUA causaria uma fuga de dinheiro e investimentos pro lado de lá do 49º paralelo, o que resultaria em depreciação da nossa moeda, e o monte de caca em que isto tudo implica. Ou seja, a taxa de juros canadense é determinada pelos fatores que determinam a taxa de juros estado-unidense.
Motivado pela crise do setor imobiliário e a cada vez maior fragilidade de sua economia, o banco central dos EUA abaixou ontem suas taxas em 0.75%, para 3.5%. O negócio lá anda feio, parece que a última vez que houve intervenção nesta taxa fora das datas pré-determinadas tinha sido após a queda das torres gêmeas. E isso levantou as sobrancelhas do mundo inteiro, inclusive dos diretores do Banco do Canadá, que se levantaram do seu sono habitual, e também nem esperaram a próxima reunião deles, e abaixaram a taxa em 0.25%, para 4% anuais.
Tudo isso para dizer que são essas taxas de juros que dirigem outras taxas na economia, e no meu caso, eu estou particularmente interessado nas taxas de hipoteca. Apesar da crise mundial, que deveria fazer com que eu economizasse meu dinheirinho no caso de alguma merda, meus planos para este ano incluem a compra de um imóvel aqui, um lugar onde eu possa finalmente criar raízes, e começar a investir no meu futuro. E embora outras situações têm alongado um pouco mais o curto-prazo que eu tinha estabelecido para este projeto, taxas de juros mais baixas voltam a trazer para mais perto este meu antigo sonho.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Sonho

I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character.
Martin Luther King Jr.
Na terceira segunda-feira do mês de Janeiro, os EUA comemoram o dia de Martin Luther King Jr., o reverendo negro americano que iniciou um movimento não violento de luta pelos direitos civis dos negros, vítimas de preconceito em leis federais e estaduais da época.
Aqui no Canadá hoje é dia preto na folhinha, mas como a cabeça está sempre matutando, fiquei pensando em igualdade e preconceito. Embora às vezes algoz, é só quando estou no papel de vítima que percebo que mesmo numa comunidade tão plural como Montréal, muitos querem exaltar a superioridade própria em detrimento da do vizinho.
E isso é algo que me mata de não estar no Brasil, e me acompanhou antes no Canadá, depois na Alemanha, depois na França, e sempre nas minhas caminhadas em torno do globo: eu não consigo deixar de me sentir estrangeiro. Não quero deixar de me sentir brasileiro, mas por que é que eu tenho que ser lembrado constantemente de que não pertenço ao grupo?
Não falar o idioma corrente é sempre o maior problema. Aqui no Québec eles são muito orgulhosos de sua herança francesa, e sempre tiveram que defender arduamente sua língua, seus sete milhões de francófonos apertadinhos no canto do continente de mais de 300 milhões de anglófonos. Depoimentos de amigos originalmente daqui, mas de famílias que falam inglês, reportam o mesmo algumas vezes, me confirmando que não ter nascido aqui é só parte do meu problema.
Outro ponto é que a população imigrante de Montréal é muito onipresente, e inclusive suas gerações seguintes, que mesmo tendo estado aqui a vida toda, ainda são vistos como alienígenas. E muitas dessas comunidades ou não conseguem, ou não querem, se integrar bem, e se perpetuam nos guetos, vivendo, comendo e procriando em sua própria língua e cultura; isso cria ainda mais a impressão de que isso aqui tá tudo dominado.
Mas o pior é perceber este sentimento das pessoas próximas. Muitos já me indagaram o motivo de eu ter vindo para o Canadá, com a conotação 'se você não estava feliz na cidade onde você morava, por que vir para cá e não mudar de cidade simplesmente?'. Ou então a mais clássica frase 'mas você é diferente', no meio de conversas onde se escolhe malhar os imigrantes por todas as desgraças do país.
Da minha experiência, aqui eles têm aversão, quase ojeriza talvez, aos estrangeiros em geral, mas se apegam e têm relações normais com aqueles em particular à sua volta. O que facilita, mas ainda assim é pesado.
Quando não pertencemos a lugar nenhum, é possível se sentir ambientado em qualquer lugar que seja?

sábado, 19 de janeiro de 2008

No te salves

Uma réplica ao post em que publiquei o poema 'Muere Lentamente' há alguns dias me foi enviada através de um comentário por El Sastre de Ulm, e como não são muitos os comentários nem os bons poemas com que me identifico, achei uma boa idéia compartilhar em um espaço menos escondido dos holofotes.

No te salves

No te quedes inmóvil
al borde del camino
no congeles el júbilo
no quieras con desgana
no te salves ahora
ni nunca
no te salves
no te llenes de calma

no reserves del mundo
sólo un rincón tranquilo
no dejes caer los párpados
pesados como juicios

no te quedes sin labios
no te duermas sin sueño
no te pienses sin sangre
no te juzgues sin tiempo

pero si
pese a todo
no puedes evitarlo
y congelas el júbilo
y quieres con desgana

y te salvas ahora
y te llenas de calma
y reservas del mundo
sólo un rincón tranquilo
y dejas caer los párpados
pesados como juicios
y te secas sin labios
y te duermes sin sueño
y te piensas sin sangre
y te juzgas sin tiempo
y te quedas inmóvil
al borde del camino
y te salvas
entonces
no te quedes conmigo

Mario Benedetti

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Mude o mundo

Recebi por email esses cartões de Ano-Novo criados pelo site Mude o Mundo, e achei muito legal a idéia. São algumas dicas e conselhos clássicos que sempre escutamos, mas nem sempre praticamos. Ajudemos a divulgar!
Acho que o que mais me chamou a atenção foi que são coisas que eu tento incorporar ao meu cotidiano.
E você, o que você faz para mudar o mundo?











quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Jantar dos Filósofos

Encontrei essa ótima foto com o título 'deadlock' no blog do Miguel, e rapidamente vi passar pela minha mente algumas muitas matérias da graduação, nos saudosos dias de chinelo havaiana e bandejão na Unicamp.
Em inglês, deadlock é uma situação em que progresso algum pode ser feito ou nenhum avanço é possível. Em computação, normalmente se refere a duas ações que estão paradas, uma esperando a outra terminar para poder avançar, e portanto, nenhuma nunca termina, como dois processos que esperam recursos serem liberados um pelo outro.
Mas a parte mais legal disso são as analogias clássicas na literatura e que sempre são citadas em todas as aulas, e que passaram voando pela minha imaginação ao olhar e rir com essa foto. No caso de deadlock, o prelúdio é sempre a explicação de concorrência, que é quase sempre feita com o exemplo do jantar dos filósofos.
Em uma mesa redonda, alguns filósofos estão sentados para pensar e comer, e são servidos de arroz, que deve ser comido com palitinhos, como qualquer iguaria chinesa. Assim como em computação, os recursos são escassos, e há somente um palitinho entre cada dois filósofos. Eles só param de pensar quando têm fome, e para comer, cada filósofo deve ter nas mãos os dois palitinhos aos seus lados, privando seus vizinhos de sua utilização até que ele esteja saciado, quando libera os palitinhos e volta a filosofar. Quando um filósofo tem fome e só tem um palitinho à sua disposição, ele o segura e espera até que o outro esteja disponível. Se um filósofo passa fome por muito tempo, ele morre. Eles só pensam e comem: comunicar-se para resolver o problema da escassez não rola nesta mesa.
A foto acima é um caso real em que cada filósofo tem um palitinho em mãos, e espera indefinidamente até que o colega ao seu lado libere o outro palitinho que vai lhe permitir comer: um deadlock. Em um mundo com poucos recursos, não há palitinhos nem rua para todos.
Uma solução para o problema dos filósofos é adicionar um garçom à mesa, que deve arbitrar o uso dos palitinhos. Em uma mesa com cinco palitinhos e cinco filósofos, como na figura abaixo, se quatro palitinhos já estão sendo usados, o garçom nega o acesso ao último deles. Em computação, o papel do garçom é feito por um pedacinho de código chamado semáforo. Que também existe na foto, mas que aparentemente não foi respeitado.
Nem sempre há arbitração, mas se ela existe, e os filósofos não seguem as regras sobre o uso dos palitinhos, eles merecem mesmo morrer de fome, não? Bem-vindos a São Paulo.

O que é mais difícil, comer arroz de palitinho ou entender essa baboseira toda?

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Ponto de vista

Manhã ensolarada e gelada, após um dia inteiro de tempestade de neve.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Recomeço

No filme Groundhog Day ('Feitiço do Tempo', em sua versão traduzida), Bill Murray faz o papel de um homem do tempo que fica preso em um dia que se repete indefinidamente. Tudo acontece da mesma maneira: a partir do momento em que ele acorda, a mesma seqüência de eventos passa a ocorrer, sem nenhum impacto nos idênticos dias que se seguirão: ele desperta com a mesma música no rádio, as mesmas pessoas o cumprimentam na rua, a mesma tempestade de neve corta a comunicação e acesso a outras cidades. Ele é o único que parece saber do que acontece, ninguém mais se enxerga preso na eterna repetição.
Em um episódio do seriado Star Trek: The Next Generation, a espaçonave é completamente destruída em uma explosão, mas a tripulação reinicia a mesma jornada, que sempre culmina no mesmo acidente. Neste caso, embora ninguém tenha consciência da situação, todos têm sensações de déjà vu, e passam a enviar mensagens sutis para a próxima repetição para que sejam decodificadas por eles próprios, na tentativa de escaparem do acidente.
Se alguém por aí já leu Also Sprach Zarathustra ('Assim Falou Zarathustra'), e passou da parte da ponte na quarta página, eu gostaria de saber mais sobre o eterno retorno do idêntico tratado por Nietzsche nesta obra.
Pensando nessas coisas todas, eu penso na vida,
e esta é uma resolução que faltou na minha lista de 2008: não quero recomeçar nada, quero trazer toda a bagagem de coisas boas e ruins, e continuar tocando em frente. Não quero mais acreditar nas mesmas mentiras, nem cair na mesma lábia das mesmas pessoas que sempre reencarnam outros personagens, nem ficar preso na mesma rotina perversa ad infinitum.
Mas será que estamos pelo menos tentando nos enviar sinais para não cairmos no mesmo buraco amanhã em que caímos hoje? Será que nos damos conta de decodificar esses sinais? Será que conseguimos ver a cíclica repetição do que sempre nos faz mal? E o que fazemos para quebrar o ciclo? Ou será que não tomamos nenhuma providência e acabamos nos explodindo?
Ou será que estou pensando demais?

domingo, 13 de janeiro de 2008

Muere lentamente

Muere lentamente
quien no viaja,
quien no lee,
quien no oye música,
quien no encuentra gracia en sí mismo.

Muere lentamente
quien destruye su amor propio,
quien no se deja ayudar.

Muere lentamente
quien se transforma en esclavo del hábito
repitiendo todos los días los mismos trayectos,
quien no cambia de marca,
no se atreve a cambiar el color de su vestimenta
o bien no conversa con quien no conoce.

Muere lentamente
quien evita una pasión y su remolino de emociones,
justamente estas que regresan el brillo
a los ojos y restauran los corazones destrozados.

Muere lentamente
quien no gira el volante cuando esta infeliz
con su trabajo, o su amor,
quien no arriesga lo cierto ni lo incierto para ir detrás de un sueño
quien no se permite, ni siquiera una vez en su vida,
huir de los consejos sensatos…

¡Vive hoy!
¡Arriesga hoy!
¡Hazlo hoy!
¡No te dejes morir lentamente!
¡No te impidas ser feliz!
Pablo Neruda

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

A música do conde

Ai, quanta bobagem nessa vida. Rolei de rir ontem com esse clássico do Sesame Street, levemente alterado:


E a sua versão original:


Como a gente pensa em besteira, né?

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Ano Novo

A vida é igual em toda a parte e o que é necessário é a gente ser a gente.
Clarice Lispector

Voltar pra 'casa' depois de ter passado férias em 'casa' mexeu um pouco com os meus miolos, e chegando em Montréal eu tive uma sensação forte de perda de identidade. Mas passou rápido, ao contrário da que experimentei ao chegar aqui pela primeira vez, há pouco mais de um ano. Ainda assim, foi difícil colocar em ordem na minha cabeça a qual lugar pertenço, o que eu estou deixando pra trás, e para quê estou retornando.
Precisei do retorno da vida à normalidade para me tirar essas idéias bestas da cabeça. A volta ao trabalho, à faculdade, à academia. A troca de presentes de Natal com o pessoal do apartamento, seguido do longo papo em torno da mesa da cozinha. O vento frio, a chuvinha calma, a enxurrada escura da neve derretendo. A neblina em que se afoga a cidade por causa da humidade que chega do nada depois de fazer muito frio. O barulho que o metrô faz ao sair de algumas estações, que dizem por aí ser as três primeiras notas de alguma obra erudita. O cheiro do aquecimento em casa, e dos lençóis recém-lavados, e do ar de fora que entra rápido pela fresta da janela. Os causos de férias contados e ouvidos no trabalho. As boas vindas de todos, de alguns mais tímidas, de outros mais espontâneas, mas sempre sinceras. E tudo que se faz automaticamente e se repete dia após dia, e nunca é levado em conta
Minha vida é aqui, minha vida está aqui, e é aqui onde me sinto em casa. O horizonte que se apresenta na minha cabeça quando penso no meu futuro, embora minha míope visão do mundo nunca tenha me permitido ver muito longe, é o céu de Montréal. E sair daqui não me foi suficiente para perceber, eu precisei é voltar para cá para entender tudo isso.

Pequena, e nem tão rara assim, demonstração de afeto do povo do trabalho, com a minha volta.

sábado, 5 de janeiro de 2008

Resolucionando 2008

Resoluções para o Ano-Novo:
  • comprar uma casa. Por casa, eu me contento com um apartamento bem pequininho no subsolo lá no final da linha do metrô. Vai ser difícil, pois tem o esforço de procurar muito bem pra achar alguma coisa interessante, e a adaptação da grana curta por um tempo (coisa rápida, tô pensando numa hipoteca de 25 anos, passa rapidinho).
  • aumentar a minha renda em pelo menos 10%. Vai ter que rolar um aumento no emprego, pelamordedeus, senão o último plano fica comprometido.
  • continuar com bons níveis de economia mensal, e investir o meu dinheiro em menos bobagens, e mais metas.
  • ler 4 livros em francês. Já estou com o Código da Vinci, alguns Harry Potter, todos os Narnia e um ou outro Jules Verne, todos que comprei na França no ano retrasado e ainda estavam no Brasil, e com eles eu já me contento.
  • falar francês com mais freqüência em ambientes bilíngues. Essa realmente dá preguiça, mas vou fazer o esforço;
  • aproveitar o verão ao máximo, pra esquecer estes difíceis meses de inverno.
  • continuar na academia, mas tentar fazer dela uma obrigação que nem trabalho. Vencer a preguiça e cansaço no final do dia é muito difícil.
  • viajar para algum lugar novo.
  • passar mais tempo com pessoas e menos com a Internet e video-game.
  • fazer mais atividades externas. Agora no inverno quero esquiar, patinar no gelo, e no verão ver se eu acho alguma coisa bacana pra me manter ocupado também.
  • manter a perspectiva da faculdade como um passatempo, e não me estressar muito com o curso. Vou continuar com uma matéria por termo, sem pressa para terminar.
  • tirar mais fotos, de mim, das pessoas, dos lugares. Já comecei a andar com a câmera na mochila o tempo inteiro.
  • ficar em paz comigo e com as pessoas à minha volta.
  • retomar o hábito de ir ao cinema.
  • comer melhor.
  • e finalmente, não morrer (nem de morte matada, nem de morte morrida, e nem de morte auto-matada). Essa parece fácil, mas não é tanto, se bem que eu estou quase ficando bom já.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Saldo

Em menos de duas semanas de férias, eu fiquei 25 horas em aviões, outras 10 em carros, outras 15 em ônibus, outras 20 esperando em aeroportos; eu dormi em quatro camas diferentes; eu chorei um monte e eu ri outros muitos; eu beijei e me apaixonei; eu tomei mais banhos em um único dia do que eu poderia contar com os dedos das mãos; eu cortei o cabelo, e pude explicar claramente como eu queria o corte, mas ficou igual ao que sempre fica; eu vi a vida passar e pouco mudar; eu assisti ao sol nascer e se pôr; eu encontrei pessoas de quem estava morto de saudades, e outras que eu nem fazia questão de ver; eu conheci alguns personagens da vida alheia de quem havia escutado muito, e outros que entraram na minha e de quem quero falar bastante; eu passei muito muito muito calor e muito frio; eu cantei Marisa Monte e Cássia Eller alto e fiquei rouco, e escutei Jorge Benjor e Djavan como nunca antes; eu contei a mesma mentira várias vezes e se eu estivesse distraído até eu acreditava nela; eu brinquei com os meus sobrinhos e comecei a ter saudades deles mesmo antes de me despedir; eu matei três baratas gigantes e fugi de algumas outras; eu comi muito o tempo todo e bebi demais vez ou outra; eu fui em um casamento e participei como importante peça para a cerimônia; eu aprendi a tocar um instrumento cujo nome ninguém sabe, mas errei um pouco o compasso; eu falei da vida com uma sinceridade que não me é característica; eu fui chamado de Deus por alguém que rapidamente também passei a considerar divino; eu atravessei uma tempestade de granizo como nunca havia visto antes; eu dei tchau para pessoas que acho que nunca mais vou ver; eu fiquei sabendo de coisas que preferiria ignorar mas consegui compartilhar um monte delas para me aliviar seu peso.
O saldo? Extremamente positivo! Mas eu só tenho fôlego para outras férias assim no próximo Natal.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Jornada - Parte 2

"O senhor não vai ter problemas com a sua conexão em Miami" - me garantiu a funcionária da American Airlines, após me explicar que meu vôo sairia de São Paulo com uma hora de atraso. E eu até acreditei, pois ainda me sobrariam duas horas lá.
O vôo não foi problemático, eu assisti a três filmes no avião pois queria me manter acordado para chegar em casa cansado, e já cair na cama para acordar no dia seguinte pronto para o meu primeiro dia de trabalho do ano. O controle de passaportes, que estava me deixando mais inseguro, foi rápido, e eu teria tempo suficiente para pegar a minha mala e andar tranqüilamente até o outro portão onde o avião para Montréal estaria me esperando.
Nas esteiras rolantes para pegar a bagagem, me parecia que o mundo inteiro tinha aterrissado em Miami naquele momento. E apesar da muvuca, eu fui vendo as pessoas que estavam comigo no vôo pegarem as suas malas e desaparecerem para seus destinos. Quando começaram a aparecer na esteira as bagagens de um outro vôo, eu comecei a ficar preocupado, e na minha falsa simpatia, já crente que meu mochilão havia sido enviado para a Arábia Saudita por engano, fui tentando descobrir na multidão se eu havia sido o único privado de seus pertences.
E no desespero de pessoas gritando em espanhol, crianças chorando, gente indo e vindo, malas e mais malas chegando e nada da minha, descobri que havia pelo menos uns 10 outros azarados com o mesmo problema. Os funcionários da companhia aérea e do aeroporto demoraram umas duas horas para mudar o discurso de 'está tudo correto, é só aguardar' para 'vamos verificar o que pode ter acontecido', e foi só depois que meu avião para Montréal já tinha partido que recebemos a notícia que as malas haviam sido 'esquecidas' dentro da aeronave.
Nisso eu já queria estrangular uma meia dúzia ali, mas a pessoa que escuta o xingo nunca é realmente culpada, e para não piorar a situação, resolvi escutar os conselhos de mamãe que diz quem quem grita perde a razão, e fui sorrindo amarelamente pra todo mundo até que algo fosse feito para remediar a merda toda. Segundo a mesma mamãe, paciência é uma virtude que se adquire com prática, e eu fui praticando. Eu já estava imaginando ter que pegar mais uns dois vôos para só chegar em Montréal no meio da madrugada, mas eu ainda estava sendo otimista demais: eu só sairia de Miami no dia seguinte mesmo.
Fui mandado para um hotel, que ficaria a 5 minutos do aeroporto, onde eu poderia jantar, e voltaria no dia seguinte para pegar o primeiro vôo para casa às 7:30 da manhã. Após meia hora para chegar no hotel, descobri que havíamos sido mandados para o meio da minha visão preconceituosa dos Estados Unidos: uma rodovia super larga, com vazios enormes entre um eventual shopping, um ou outro hotel e um posto de gasolina. Também fui notificado de que o restaurante do hotel já estava fechado àquela hora, mas que eu poderia comer em um fast food a algumas gigantes quadras de lá. E que para chegar no aeroporto a tempo de embarcar, eu teria que acordar antes do café da manhã ser servido, e sair bem antes da primeira van disponível para levar hóspedes até o aeroporto.
Mais um suspiro profundo e um sorriso falso, e uma ligação para a companhia aérea me trocar de vôo mais uma vez. Meu chefe já havia recebido um email de que eu chegaria atrasado, então acabei me conformando que eu simplesmente não conseguiria chegar a tempo para trabalhar, e pedi para ser posto no vôo que sairia ao meio dia.
Eu já estava tão cansado que não sabia nem mais soletrar meu nome, e com o estômago aos urros, inconformado com o lanchinho pobreta que nos deram de janta no avião. No dia mais frio dos últimos muitos anos na costa leste norte-americana, fui andando contra o vento e congelando à temperatura pouco abaixo de zero com a única blusa de frio que eu havia empacotado, sobre uma camiseta regata. Passei reto pelo McDonald's, e acabei comendo um sanduíche num restaurantezinho desconhecido, mas que, graças ao bom céu, vendia cerveja, e onde encontrei um outro coitado na minha situação, com quem dividi as pendengas da vida e boas risadas da história toda.
O vôo para Montréal foi tranquilo, mas o aeroporto estava um inferno, nunca vi tanta gente nem tanta desorganização. E chegando em Montréal, outra multidão que me fez demorar uma hora e meia só para o oficial da imigração checar o meu cartão de residente e me desejar Feliz Ano Novo em português. E eu não sabia mais nem em que ano estávamos.
Fim das férias, começo do ano, a última gota da minha sanidade. Acho que cheguei mais cansado do que estava antes de partir!

Tangerina que virou picolé, ontem na Flórida, com temperaturas abaixo das esperadas mesmo para o inverno (h/t Der Spiegel).

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Jornada

Estou no meio da minha jornada de volta pra casa: saí ontem, às 3 da tarde, da casa dos meus pais, e hoje estou em um hotel em Guarulhos, esperando a van para tentar chegar no aeroporto, para tentar embarcar para Miami, para então tentar voar para Montréal, para só aí tentar chegar em casa, depois de 36 horas na estrada.
Será que eu dou conta?