domingo, 30 de dezembro de 2007

Saudades

Estou surpreso com o tanto de bobagenzinha que esta viagem ao Brasil está me rendendo. Acho que eu realmente estava com saudades, ou de saco muito cheio de Montréal, porque aqui tá tendo muita coisa boa que eu nem sabia que me fazia falta, algumas até bestas, inclusive. Tipo:
  • calor: eu que amaldiçoava este país, que parece uma extensão do inferno, estou sofrendo mas sorrindo com esse bafo todo aqui.
  • comida: acho que não dá pra fazer lista, do arroz com feijão às sobremesas que a gente só come no Natal. Como diria meu pai, estou fazendo uma refeição só por dia, eu começo a comer na hora que acordo e só paro quando vou dormir.
  • televisão: musiquinha do Jornal Nacional, assistir Fantástico e ficar com um friozinho na barriga porque no dia seguinte tem aula, ver filme nacional, até com o show do Roberto Carlos eu fiquei grudado na TV.
  • folga: lavar roupa, fazer comida, limpar a casa, isso tudo é passado distante quando há quem nos sirva e mime por todos os lados o tempo todo. A gente acostuma rapidinho com a moleza, e só quando acaba é que a gente percebe como ela nos é rara.
  • língua + sociabilidade: não tem uma caixa de supermercado por quem eu passei com quem eu não tenha conversado, todo socialmente. Isso, aliás, é um dos pontos que mais me pega, eu sinto muito a falta de me expressar bem, de conseguir entender bem o povo (e não só o que me dizem), de sacar e utilizar as sutilezas na comunicação.
  • e minha família, e meus amigos, obviamente
Neste momento tenso é importante relembrar também das coisas que me levaram pra tão longe, porque a dúvida invariavelmente aparece para me poluir as certezas.

sábado, 29 de dezembro de 2007

Memória

Eu acho que o verão aqui no interior do estado de São Paulo tem uma grande semelhança com o inverno no Québec: a gente esquece depois que passa, e volta a se assustar no ano seguinte quando tudo recomeça. Em Montréal eu não consigo não me impressionar com o espanto e comoção causados por cada tempestade neve: será que o pessoal esquece que o Canadá ainda não virou um país tropical, e acha que não vai nevar?
Descendo pro Brasil, aqui na casa dos meus pais, por exemplo, tomar um banho frio nesta época do ano não é uma opção, a água sai quente de qualquer torneira ou chuveiro, independente da hora do dia. À noite, dormir só de cueca com janela aberta e ventilador ligado no máximo não basta, aqui houve noite em que eu tive que deitar para dormir em cima de uma toalha molhada, senão eu não conseguia pegar no sono. E todo mundo acha que é o apocalipse.
Será que o mundo está realmente ficando mais quente ou a gente é que está ficando cada vez mais esquecido?

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Adeus ano velho

Acabou.

Terminei a faculdade por esta sessão, entrei de férias no trabalho, e estou indo passar Natal e Ano-Novo no Brasil. Vou hoje, e volto em duas semanas.
Obrigado pela audiência em 2007, e ano que vem ainda estaremos aí, compartilhando os perrengues da vida, e fazendo limonada com os limões que o destino nos manda.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Transporte

Depois da tempestade de neve de domingo, a situação no trânsito de Montréal ainda está incontrolável. Hoje de manhã fiquei esperando um tempão nos 15º negativos, e todos os ônibus que passavam estavam 'hors service'. Finalmente quando passou um ônibus funcional, ele estava tão cheio que não cabia um peido lá dentro. Desisti e andei até o metrô.
Com minha memória fraca, cai no mesmo erro de pegar um ônibus pra voltar embora no fim da tarde. Nem fui na academia, pois queria chegar cedo em casa, e nem lembrei da bagunça nas ruas porque o ônibus passou super rápido. Escutando música e jogando meu novo Nintendo DS, demorei um pouco para perceber que depois de um tempinho no ônibus, caímos num super-mega-hiper-power-fucking engarrafamento. Fizemos em 2 horas e meia o percurso de 30 minutos.
Aparentemente, a cidade não tem nenhum método para tirar a neve das ruas: enquanto a ruazinha aqui do lado que liga nada a lugar nenhum já estava limpa, a avenidona que liga o centro às bandas de casa estava com uma faixa de cada lado bloqueada por causa da neve. Até as ambulâncias por que passamos estavam presas nos cruzamentos, com suas luzes piscando inutilmente. E nada, nem ninguém, nem algum esforço por parte da administração da cidade em tentar gerenciar o inferno todo. Haja paciência!
E terminando de vez o assunto da neve, dois links muito legais com fotos da cidade em 360 graus: foto 1 e foto 2 podem ser vistas de todos ângulos arrastando o ponteiro do mouse sobre elas.

domingo, 16 de dezembro de 2007

Compras

A última atividade do final de semana antes de ir pra casa e esperar a tempestade de neve eram as compras natalinas: eu precisava pensar nas lembrancinhas pelo menos pro pessoal daqui de casa. Foi então que tive a péssima idéia de passar no Walmart, que, por uma maldição de algum inimigo, estava no meu caminho. Pra se ter uma idéia, na hora que eu cheguei não tinha mais carrinho nem cestinha disponível: eu, tonto, devia ter entendido essa dica e imaginado o nível de insanidade em que aquilo se encontrava, mas ainda estava otimista.
Eu sempre me impressiono mas depois esqueço como aquele lugar é inferno: um bilhão de pessoas, todo mundo passando por cima de todo mundo, batendo, escoriando, esbarrando, chutando qualquer um que se portasse entre o carrinho de compras e o produto anunciado como mais barato que toda a concorrência. Eu estava me sentindo na pegadinha do Faustão, havia engarrafamentos em todos os corredores, não era possível voltar atrás e as filas para os caixas eram quilométricas. Tudo tem seu preço, aparentemente. E agora estou pensando em tatuar no meu pulso um recadinho para eu evitar aquele lugar, principalmente em épocas de alto consumo.

Chicano

Não podia passar deste final de semana, já fazia tempo que eu estava adiando pra ir renovar o meu cartão do seguro de saúde. O formulário já estava preenchido e assinado faz tempo: 3 xis-zinhos preenchidos indicando que o meu nome estava correto, que o meu endereço estava correto, e que eu não havia passado mais de seis meses fora do Québec no último ano, e outros 2 quadradinhos em branco sem xis-zinhos indicando que eu não havia morrido, e que não havia me mudado de província.
Vasculhei a gaveta de tranqueiras até que achei uma foto no tamanho certo (35x45mm), e fiquei todo feliz que era uma boa até, fundo branco, eu de gravata, topetinho, não pálido demais, nenhuma espinha, sério mas não assustado. Mas alegria de pobre não dura tanto, a alta tecnologia do bendito escritório em que escolhi para fazer a renovação não permitia mais fotos impressas: como agora tudo era feito no computador, eu teria que tirar uma digital lá na hora.
E eu, antes super-orgulhoso da imagem que me representaria pelos próximos cinco anos no meu cartão, tive que me resignar a ser retratado fielmente no meu melhor estilo gripado-em-fim-de-semana: pêlos aleatórios na cara, que alguns chamam de barba e que estava sem ser feita havia 10 dias, bigodinho de boliviano, o cabelo todo bagunçado por causa da toca, olheiras, e o nariz vermelho (à la Rudolph) e escorrendo por causa do frio. Uma visão dos céus, praticamente.

sábado, 15 de dezembro de 2007

Sábado

Hoje acordei cedo, como não fazia há muitos sábados, e analisando a minha longa lista de afazeres, tive um curto minuto de felicidade ao abrir as persianas e ver o sol brilhando tão forte. A televisão me indicou momentos depois que a temperatura externa estava na casa dos -20ºC, e que o sol da manhã sumiria durante o dia para dar lugar à segunda grande tempestade de neve deste inverno: 20 a 40 centímetros são esperados para amanhã. Ou seja, tive que cortar as atividades externas planejadas para o fim de semana, e reduzi-las para o mínimo necessário, para evitar colocar o nariz pra fora num gelo destes de hoje, e nem pensar em sair da cama amanhã enquanto o mundo estiver se acabando em neve lá fora.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Curtas

Assuntos locais para se conversar bebendo uma cerveja no bar da esquina:

  • Não bota mais fé na religião em que foi batizado, literalmente? O comendiante québécois André Montmorency, que afirma ter sido vítima de abuso sexual de um padre enquanto criança, começou uma campanha para que as pessoas decidam pela apostasia. Em um mundo high-tech, a deserção se tornou muito fácil, com a disponibilidade online do formulário a ser preenchido. A Internet é realmente a melhor invenção depois do pão-fatiado, a gente pode mandar de carta para o Papai Noel até um recadinho para Deus.
  • O ex-primeiro-ministro canadense Joe Clark levou um soco de um transeunte que o reconheceu na rua, e que não resultou em mais do que um nariz sangrante, mas atiçou a minha imaginação: como é que isso não virou moda no Brasil ainda? Será que a malandragem política brasileira anda mais bem protegida? Ou então que a nossa memória coletiva é fraca demais? Civilizados demais para tais demonstrações de fúria, talvez? Eu, particularmente, precisaria de mais do que os dedos das mãos e dos pés para contar o número de gente em que eu adoraria dar um porrada, mas graças ao Bom Pai e às normas e regras sociais que me foram transmitidas de modo a inchar meu super-ego, não saio por aí interpelando esse povo que merece uma surra, mas será que dá pra contar com personalidades tão serenas quanto a minha com tanto louco solto por aí?

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Aniversário

O email do Skype dizendo que minha assinatura anual ia vencer. A carta da operadora de celular agradecendo por meu tempo como cliente. O vencimento do meu cartão do seguro saúde. Muita coisa me alertou com alguma antecedência a breve expiração do meu primeiro ano em Montréal, que se dá hoje. Eu não sou de comemorar datas, prefiro usá-las para comemorar coisas da vida. Então mais do que o meu aniversário, mais do que Dia de Ação de Graças, e provavelmente mais do que o Natal e Ano Novo, hoje eu tenho razões para celebrar pois olho pra trás e vejo que neste tempo aqui um montão de coisa bacana aconteceu. Apesar da vida estar se tornando rotineira, até isso é legal, pois me dá a impressão de que a vinda se encaixou na vida e que esta última está se ajeitando. Conheci um monte de gente interessante e outro bando que não presta (os que não prestam acabam acrescentando bastante também, diga-se de passagem), consegui um emprego com boas perspectivas, terminei metade dos meus cursos da pós na faculdade, estou juntando dinheiro para importantes planos futuros (mais detalhes em breve), descobri que gosto muito de Montréal e do estilo de vida aqui, não morri no inverno e quase me matei no verão, o francês está entrando na minha cabeça lentamente mas certamente, e muito mais: motivo pra comemorar realmente não falta. Mas como algumas coisas na vida (in?)felizmente não mudam, me bate uma preguiça mental e o sono urge continuamente, então a minha comemoração se dá comigo sozinho e quietinho, debaixo das cobertas.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Presente

Qualquer que seja a direção para onde se olha em Montréal, o Natal se esfrega em nossas caras, a cidade inteira parece um cartão, como nessa foto acima, com a árvore gigante que está do lado do trabalho desde a última semana de Outubro!! Pra mim ainda não caiu muito bem a ficha, acho que minha lerdeza misturada com muito trabalho e provas na faculdade me retardaram a absorção do espírito das festas, mas as coisas estão mudando. Nesta semana, montamos a árvore em casa, exatamente a mesma do ano passado, cuja foto também foi publicada neste espaço (como a árvore é exatamente a mesma, achei melhor não repetir a informação). E o Alexandre demonstrou um interesse pouco usual no meu videogame: eu jogando deitado na cama, ele entra no meu quarto, faz um comentário aleatório sobre o frio, e de pé do meu lado, direciona o olhar para o console, enruga o nariz e lê em voz alta "X-BOX 360", como se a informação realmente fosse grande novidade pra ele. Outro comentário aleatório aqui e ali, e antes de sair correndo com a namorada, me pergunta de que tipo de jogo eu gosto. A sutileza nunca foi uma de suas melhores características, então acho que já sei o que me vai me esperar debaixo da árvore.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Caos

O caos já estava anunciado para esta manhã havia alguns dias, entre 30 e 35 centímetros de neve nos aguardariam no caminho pro trabalho, e com ela a garantia de dor de cabeça para muita gente. Nada fora do normal, já é tempo de tempestade, mas o que me fez levantar as sobrancelhas foi a notícia no telejornal matinal para o qual eu acordo diariamente que muitas escolas estariam fechadas.
Lembrei imediatamente da minha primeira estadia no Canadá, há mais de década, no norte da Colúmbia Britânica, em que as escolas não fechavam por conta da neve, mas sim por conta da temperatura: se às 7 da matina o mercúrio indicasse -35ºC ou menos, não haveria aulas. Lembro que eu acordava de manhã e rezava para que alguém batesse na minha porta para dar a boa notícia do dia de folga. Mas às vezes a reza não era suficiente, ou o Santo não fazia bem o cálculo da conversão da temperatura, e nos mandava -34ºC; aí, podia ter choro ou vela ou até congelamento da ponta dos dedos, era a longa caminhada branca a passos cautelosos até o ponto do ônibus que parecia nunca chegar.
E ainda na cama, vagarosamente, com o olho direito aberto e o esquerdo ainda dormindo, tentei entender a lógica de se fechar as escolas com o tempo ruim. Pensei que, como se diz na minha terra, seria uma judiação deixar as crianças andarem pra escola num tempo destes. Mas é só neve, e não estava tão frio, e é o mau humor da vida adulta que não nos deixa apreciar o espetáculo, a molecada faz a festa na rua num tempo destes. Talvez o ônibus que leva as crianças tenha dificuldades em atravessar a neve, calculei em seguida, mas é justamente o contrário: o transporte público continua numa boa, pontual como sempre, os motoristas pisando fundo como se nada houvesse de diferente. Perigoso e complicado, isso sim, são os pais tirarem os carros das garagens e se aventurarem para levar os filhos à aula, mas eles, pais, não teriam que ir trabalhar de qualquer maneira? E pior, como se faz para ir trabalhar com filho pequeno que não vai pra escola? Se é pra fechar escola, que se decrete ponto facultativo então, oras.
O segundo toque do despertador-celular me tira do transe, e amaldiçoando as circunstâncias que não me permitem tirar o dia pra descansar, fui marchando para o trabalho, tudo igual sempre, e lá vejo que um bando de gente não foi trabalhar. Muito provavelmente os pais cujos filhos foram presenteados com o dia em casa, e que herdaram o mesmo direito. Em tempos de baixa natalidade, ninguém nem imagina levantar a palavra contra pessoa qualquer com filho pequeno. Há males (leia-se: a tempestade, não os filhos) que vêm para bens.
Abaixo, a clássica foto do carro enterrado, com a cereja sendo o recado para o coitado do dono de algum engraçadinho que passou por ali antes de mim: tenha um bom dia!

sábado, 1 de dezembro de 2007

Dia mundial da luta contra a AIDS

Statistics happen to numbers. HIV happens to people.