terça-feira, 4 de setembro de 2007

Contravenção

Depois de um queijo-e-vinho tão longe que parecia que eu estava indo para o Brasil de metrô, emerjo do subsolo meio cambaleante e intoxicado de álcool e gordura, subo o zíper da jaqueta mecanicamente, cruzo os braços, encolho o pescoço, e já sem esperança de ainda dar tempo de pegar o último ônibus, vou dando passos largos e rápidos para tentar esquentar um pouco e fazer meus sentidos sairem do torpor do meio-sono em que se encontravam. Na escuridão das ruas, só eu me aventurava a tentar chegar em casa, e nem uma explosão de uma bomba de nêutrons culminaria em um ar tão desolador como o que eu presenciava.
No fundo do meu cérebro ouço alguém atrás de mim tentar chamar a minha atenção, e em meio segundo concluo que seria mais seguro pelo menos olhar para trás e fazer cara feia, para o inimigo no mínimo entender que eu não estava nem de brincadeira, nem de bom humor.
Enquanto minhas sobrancelhas relaxam e os músculos dos membros e tronco tensionam, descubro que a voz do meu interlocutor vem de dentro de uma viatura, do seu banco do passageiro mais especificamente, e eu parado, literalmente no meio da rua, decido voltar e fazer cara de manso, afinal, não se brinca com a lei. Nesta volta, primeiro penso o que eu poderia estar fazendo de errado, além de estar bêbado, e após ponderar que andar bêbado não é crime, relaxo um pouco mais e vou pensando comigo algumas frases prontas em francês para me safar rapidamente de qualquer pergunta aleatória que o policial pudesse me fazer.
Chego na calçada de onde parti, a viatura pára na minha frente como a impedir qualquer tentativa de volta pelo caminho de onde vim, os dois policiais saem de lá de dentro, mão na cintura para deixar claro que estavam armados, e um deles começa a me dar um sermão: eu estava cruzando a rua enquanto o sinal estava vermelho para mim.
Eu até estava entendendo boa parte do que ele estava me falando em francês, mas tudo me parecia tão surreal que eu comecei a duvidar do meu bom senso. Filtrando o que ele estava me dizendo e ignorando boa parte do que eu ouvia, voltei à realidade quando escutei uma frase que terminava com as palavras ’40 dólares’. Continuei com a minha cara de imigrante, e esperando que ele já pedisse meus documentos e me desse uma multa, eles entraram na viatura de novo, e recuaram, tornando meu caminho livre de novo. Como escapei dessa, engoli a minha vontade de mandar o tiozinho à merda, e agradeci com um pouco de sarcasmo, voltando a brincar com o perigo. O sinal estava vermelho de novo, então ficamos os três ali por mais alguns segundos tensos, os dois dentro do carro, e eu no frio lá fora, até o sinal abrir, quando todos cruzamos a rua bem dentro da lei, e seguimos cada qual o seu caminho.

2 comentários:

LiLiX disse...

rs...surreal!
quando eu morei nos EUA tomei uma multa pq não andei na calçada.....hahahhaha na hora quis matar o policial...
Enfim...legal por aqui...
Como minha aventura está só começando vou passar mas vezes tá?
Au revoir! :P

erica disse...

Olá Danilo,
estou querendo ir para Montreal. Sou formad em Licenciatura desenho Geométrico pela UFRJ, e sou programador autodidata, Gostaria de saber se é possível fazer uma pós na Mcgill em ciência da cumputação, ou terei que fazer novamente faculdade, já que me área de formação é outra?
Vc poderia me ajudar?! merci