sábado, 29 de setembro de 2007

Rico

Est-ce mal vu d'être riche au Québec?
Esta pergunta foi o tema de um programa de hoje na Radio-Canada, e já foi assunto de muitas conversas minhas com amigos aqui: será que é realmente mal-visto ser rico no Québec?
Meu primeiro argumento é que é muito difícil ser rico aqui. No meu caso, por exemplo, meu salário já me coloca na média dos rendimentos, e nesta faixa, minha taxa nominal de imposto federal mais provincial é de 44%, ou seja, para cada dólar a mais que eu ganho, eu nem vejo a cor de 44 centavos.
Com o estado se esforçando tanto para redistribuir a riqueza, é natural que haja poucos ricos. Mas eu não sei se estes poucos se escondem ou se eles são realmente muito poucos, pois pelo menos aqui em Montréal não é comum de se encontrar riqueza ostensiva.
No programa, com alguns auto-entitulados experts, e participação do público, foi concluído que o povo daqui não vê a riqueza com maus olhos, mas que a sua história e cultura privilegiam riquezas menos materiais. A primeira parte da conclusão eu não sei se é verdade, mas a segunda é uma das razões pelas quais eu me sinto muito bem aqui.
Aqui não é proibido pisar na grama, pois na grama se senta nos dias de sol. As casas não precisam ser grandes, pois não faz sentido trabalhar o tempo todo para ter uma casa enorme onde não se passa tempo algum. Um dia no parque é mais valioso do que um dia no shopping. E por aí vai...

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Picnic

No verão, tem sempre tanto acontecendo em Montréal, que é difícil manter o passo com todas as atividades espalhadas pela cidade. Dependendo do círculo de pessoas com quem se convive, a gente passa batido por tanta coisa por simples ignorância. E foi assim com o Piknic Electronik, um festival de música eletrônica que rola nos finais de semana do verão inteiro, no Parque Jean Drapeau, na Ilha Santa Helena. Já tinha até ouvido falar do festival, meio que en passant, em conversas paralelas, mas foi só ontem que resolvi passar por lá com um amigo.
O público é extremamente heterogêneo, provavelmente muita gente lá ainda estava dopada das drogas da noite anterior, talvez nem voltaram para casa e emendaram uma balada na outra. Mas muitos queriam só aproveitar o resto do final de semana, dançar, ver gente, e curtir o ambiente.
E foi um ótimo programa de domingo à tarde, dançando ao som de um techno muito alto, às margens do Rio São Lourenço, e no horizonte os prédios do centro da cidade, e o sol se escondendo atrás deles.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Ponto de vista

Uma árvore mudando de cor e perdendo suas folhas precocemente, ainda no final do verão. Daqui a pouco é outono!

domingo, 16 de setembro de 2007

Vida boa

Morar em um lugar onde todo mundo é classe média acaba por render alguns prazeres na vida. Neste final de semana fui para Québec City, fazer com amigos o programinha turístico básico. Andamos o dia todo, num friozinho agradável mas com bastante sol e céu azul, e ao anoitecer, resolvemos nos dar de presente um jantar chique. A escolha era óbvia: o restaurante de um hotel 5 estrelas, no topo de uma torre de 170 metros, e que gira em seu eixo, de onde poderíamos ver o pôr-do-sol e nos restaurar da andança toda.
Devo admitir que a rotação não me agradou tanto quanto imaginava, pois embora a vista fosse muito boa, a sensação nauseante do movimento começou a encher minha paciência em pouco tempo. Resolvi então olhar menos para a paisagem e focar mais na comida, e foi aí que a tudo se complicou. Minha mentalidade de pobre e espírito de gordo falaram mais alto do que o meu falso requinte, e se era para gastar 50 dólares no buffet, que então valesse a pena. A comida não era nenhum manjar dos deuses, mas devo admitir que foi provavelmente a minha melhor refeição desde que cheguei no Québec. E eu comi demais da conta. E a sensação de preenchimento durou tempo demais, e me rendeu pesadelos por toda aquela noite. Mas valeu a pena.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Aniversário

Hoje faz exatamente um ano que eu tomei a decisão final de largar o meu emprego e a minha vida em São Paulo e vir para o Canadá. Até então, a vinda era um sonho antigo que ganhava força ou era colocado na gaveta dependendo das circunstâncias ao meu redor. Mas nesta data, depois de fazer o exame médico exigido pelo consulado, e indo atrasadíssimo para o trabalho de ônibus e metrô, este projeto de repente me pareceu tão real, tão paupável, e tão exequível, que eu não conseguia entender como não tinha chegado a essa conclusão antes. E embora a decisão definitiva tenha sido um pouco tardia, ela me poupou do excesso de ansiedade durante o processo, pois naquele ponto não havia mais nada a dar de errado.
Nos exatos três meses que separaram aquela data da minha chegada, foi tudo simplesmente uma questão de colocar as coisas em seus devidos lugares, e acomodá-las para a minha a minha partida. É claro que a vida não deixou de correr, pessoas foram e vieram, eu recebi uma promoção no emprego, e de certos ângulos eu até via um futuro menos nublado em São Paulo.
Mas não havia mais volta, a decisão já estava tomada, e não executá-la até o fim seria colocar um ponto de interrogação insuportável em meus ombros. E hoje volto à conclusão de um ano atrás: não tinha como não vir. E ainda bem que assim o fiz.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Contravenção

Depois de um queijo-e-vinho tão longe que parecia que eu estava indo para o Brasil de metrô, emerjo do subsolo meio cambaleante e intoxicado de álcool e gordura, subo o zíper da jaqueta mecanicamente, cruzo os braços, encolho o pescoço, e já sem esperança de ainda dar tempo de pegar o último ônibus, vou dando passos largos e rápidos para tentar esquentar um pouco e fazer meus sentidos sairem do torpor do meio-sono em que se encontravam. Na escuridão das ruas, só eu me aventurava a tentar chegar em casa, e nem uma explosão de uma bomba de nêutrons culminaria em um ar tão desolador como o que eu presenciava.
No fundo do meu cérebro ouço alguém atrás de mim tentar chamar a minha atenção, e em meio segundo concluo que seria mais seguro pelo menos olhar para trás e fazer cara feia, para o inimigo no mínimo entender que eu não estava nem de brincadeira, nem de bom humor.
Enquanto minhas sobrancelhas relaxam e os músculos dos membros e tronco tensionam, descubro que a voz do meu interlocutor vem de dentro de uma viatura, do seu banco do passageiro mais especificamente, e eu parado, literalmente no meio da rua, decido voltar e fazer cara de manso, afinal, não se brinca com a lei. Nesta volta, primeiro penso o que eu poderia estar fazendo de errado, além de estar bêbado, e após ponderar que andar bêbado não é crime, relaxo um pouco mais e vou pensando comigo algumas frases prontas em francês para me safar rapidamente de qualquer pergunta aleatória que o policial pudesse me fazer.
Chego na calçada de onde parti, a viatura pára na minha frente como a impedir qualquer tentativa de volta pelo caminho de onde vim, os dois policiais saem de lá de dentro, mão na cintura para deixar claro que estavam armados, e um deles começa a me dar um sermão: eu estava cruzando a rua enquanto o sinal estava vermelho para mim.
Eu até estava entendendo boa parte do que ele estava me falando em francês, mas tudo me parecia tão surreal que eu comecei a duvidar do meu bom senso. Filtrando o que ele estava me dizendo e ignorando boa parte do que eu ouvia, voltei à realidade quando escutei uma frase que terminava com as palavras ’40 dólares’. Continuei com a minha cara de imigrante, e esperando que ele já pedisse meus documentos e me desse uma multa, eles entraram na viatura de novo, e recuaram, tornando meu caminho livre de novo. Como escapei dessa, engoli a minha vontade de mandar o tiozinho à merda, e agradeci com um pouco de sarcasmo, voltando a brincar com o perigo. O sinal estava vermelho de novo, então ficamos os três ali por mais alguns segundos tensos, os dois dentro do carro, e eu no frio lá fora, até o sinal abrir, quando todos cruzamos a rua bem dentro da lei, e seguimos cada qual o seu caminho.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Setembro

Summer has come and passed
The innocent can never last
Wake me up when September ends
(Green Day)
Nesta primeira semana de setembro, reflito na inflexão que essa época traz a minha rotina. O fim das férias vem juntamente com o fim do verão, não no calendário, mas na prática. A cidade e a vida voltam à morosidade invernal dos dias cada vez mais curtos, tudo e todos armazenando energia para o frio que chega a passos rápidos.
No trabalho, a situação também se re-estabelece, e a dança de cadeiras chega ao fim, tanta gente saindo de férias durante os últimos meses, pessoas indo embora, outros sendo contratados, tudo normal mais uma vez, escritório superpopulado, que o contrário da vida lá fora, fica cada vez mais movimentado.
Volta às aulas, outras aulas, outras matérias, mesmas encheções de saco. Volta ao curso de francês, falta de desculpas para faltar à academia.
E a preguiça, aquela, a eterna, pousa sobre os meus ombros, e me deixa lento, muito lento. Alguém me acorda no verão que vem, por favor?