sexta-feira, 20 de julho de 2007

Tragédia

Em tempos de tragédia, é bom não estar no Brasil, e não sofrer com a enchente de notícias e análises e opiniões e depoimentos e críticas e desculpas. Daqui do Canadá, o acidente em Congonhas ganhou alguns minutos na mídia, mas foi esquecido rapidamente.
O chato dessa história é tentar conversar com os gringos sobre o incidente, pois isso sempre vira assunto em rodas em que se conhece a minha nacionalidade. E haja fôlego:
  • Não, não há conhecidos ou parentes meus entre as vítimas. Somos 180 milhões de habitantes, e não um grande família. O que eu não conto é que, sim, eu tenho uma amiga aqui em Montréal que tem uma amiga no Brasil cujo noivo francês estava trabalhando no prédio que pegou fogo, e que, até este momento, ainda consta como desaparecido. Tento não compartilhar esse sentimento com as pessoas aqui, mas é impressionantemente perto.
  • É claro que é seguro viajar de avião no Brasil. Historicamente, as chances de morrer em um acidente de avião são menores do que de morrer atingido por um raio ou eletrocutado no chuveiro elétrico por ter esquecido de desligar a chave central antes de se meter a eletricista. Mesmo analisando os dados parcialmente e pensarmos em 350 mortes nos últimos 10 meses em que 47 milhões de pessoas voaram, a coisa não parece tão catastrófica assim. Mas dois acidentes assim em menos de um ano? Veja bem...
  • Perigoso mesmo é estar no Brasil, e não pousar no Brasil, alguém aí tem as estatísticas de homicídio em São Paulo ou no Rio? O avião é a parte segura da viagem, mesmo com toda essa crise aérea de que se tem falado tanto. O que me deixa apreensivo na minha próxima ida para o Brasil não é o aeroporto, mas sim a criminalidade fora dele. Mas este é outro ponto em que também tento não ser muito enfático com o povo daqui.
  • Sim, sim, faz tempo que se sabe dos problemas estruturais da pista de Congonhas. Até o presidente já havia posto gente pra trabalhar nisso, e acionado todas as forças para resolver a questão. E por quê diabos não foi resolvido e nada foi feito? Bom, 'nada' é uma palavra muito forte, e nada é tão simples assim.
  • Um depósito de combustível no final de uma pista de pouso? Bom, é natural que depósitos de combustível tenham que ser construídos perto do aeroporto, mas bem no final da pista? De uma pista curta? E escorregadia? E sobrecarregada?
  • O piloto, sabendo das condições agravadas pela chuva daquele dia, não deveria ter pousado um pouco mais no começo da pista?
E para cada ponto desses, tem sempre uma piadinha dos gringos, um sorriso malicioso que resume tudo: coisas de terceiro mundo, de país sub-desenvolvido, de povo ignorante. E é muito difícil de explicar que não é bem assim. E impossível de entender.

Um comentário:

Moniqueta disse...

quando leio isso que vc escreveu fico me perguntando... será que aquele incidente que vi na TV aí em Montréal (e que nem foi noticiado aqui no Brasil) aquele do incêndio na escola em pleno Janeiro quando as crianças já haviam voltado ás aulas, é coisa de primeiro mundo??? porque não vejo esse tipo de coisa acontecendo aqui no Brasil com frequência... quando é que as tragédias vão deixar de ser tragédias porque acontecem no "terceiro" ou "primeiro" mundo??? Ser brasileiro não é nada fácil, mas, tragédias acontecem sempre e em qualquer lugar, não é?
Um pouco de humanidade seria bom para todos...