terça-feira, 31 de julho de 2007

Presente

Presenteei o Rio São Lourenço com um objeto que me era muito caro: indo para o trabalho, alheio ao mundo por conta da minha música portátil ao máximo, saí do ônibus em frente à estação do metrô, e acabando de atravessar a rua sinto os fones nos meus ouvidos serem puxados para baixo enquanto meu MP3 se soltava do meu bolso para cair diretamente num bueiro. Não era nenhum iPod, mas me fazia companhia nos caminhos entre casa e trabalho, trabalho e faculdade, e faculdade e casa. Talvez uma bênção para os meus tímpanos, que eu não sou de abusar mas tampouco de poupar, talvez uma maldição de algum co-passageiro incomodado pela minha cantoria, ou o acaso brincando um pouquinho comigo. Em todo caso, passei a contornar os bueiros desde então.

domingo, 29 de julho de 2007

Benesses

Depois de uma semana no novo trabalho, acho que já posso fazer um balanço positivo da decisão de ter trocado de emprego. Minha função parece ser interessante, mas ainda assim um pouco bate-estaca: uma equipe desenvolve os jogos para celulares, e eu sou um dos responsáveis por fazê-los funcionar em diversos tipos de aparelho. Muita coisa nova que ainda tenho que aprender, e em um assunto interessante, então é satisfatória a sensação de desafios futuros.
O que mais me impressionou foi o ambiente de trabalho. No final do primeiro dia, em que fiquei às voltas com RH por conta da papelada inicial, perguntei ao meu chefe a que horas deveria chegar no dia seguinte, ao que ele me responde muito naturalmente: "Quando você acordar!". Horário flexível, todo mundo confortável de bermuda e chinelo, comida para o café da manhã e chá da tarde o tempo todo na cozinha. E as pessoas, todo mundo muito de boa, dispostos a ajudar. "Muito stress, precisa de um tempo de criativade?" - meu chefe me pergunta retoricamente - "Fique à vontade para sentar aqui na sala e jogar videogame um pouco". Nos dias de prova que estão chegando, vou poder sair mais cedo ou tirar o dia livre. E às sextas pela tarde, o que se passa? Cerveja pra todo mundo, é óbvio.
Outro fato muito positivo são os benefícios. Nada de muito absurdo, nada que as outras empresas sérias por aí não ofereçam também, mas como o meu último emprego não valorizava nada nem ninguém, pra mim ainda é um pouco de novidade esses pequenos incentivos. Desconto em academia, plano médico e odontológico a partir do primeiro dia, contribuição em plano de pensão, bônus anual, e o melhor até agora: incentivo para eu comprar um video-game (!!!!), e mega-desconto nos títulos da EA.
Acho que agora finalmente eu volto a melhor direcionar o meu futuro profissional.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Discurso

Hoje é o 40º aniversário do controverso discurso que o General Charles De Gaulle deu em Montréal, incentivando o movimento de soberania do Québec. Em viagem oficial ao Canadá para participar da Expo 67, o então presidente francês se pronunciou de improviso na sacada da prefeitura de Montréal, onde uma multidão aclamava por algumas de suas palavras, e foi presenteada com um discurso que culminou com as frases "Vive le Québec! Vive le Québec libre!".
Depois das eleições passadas, os separatistas andam um pouco menos animados, por causa do pouco apoio que suas antigas idéias receberam, mesmo que a Assembléia Nacional do Québec nunca tenha tido tantos deputados que apoiam a soberania como agora. O povo, no entanto, está muito cético de que muita coisa vá melhorar de verdade caso a emancipação política realmente ocorra, e o projeto, portanto, permanece dormente.

domingo, 22 de julho de 2007

Produção

Hoje marca o fim da semana mais improdutiva da minha vida desde que comecei a trabalhar aqui em Montréal. Deixei tudo empilhar, não estudei nada, saí nos finais de semana e algumas vezes durante a semana, cancelei minha aula de francês, fui assistir os fogos de artifício, assisti filmes, dormi tarde, acordei tarde e fiquei enrolando na cama, aproveitei a minha semana de férias entre um emprego e outro.
Mas agora tudo recomeça. Esta semana já tem projeto pra entregar, semana que vem começam as provas finais, para as quais ainda não estudei nada. Emprego novo começando amanhã, friozinho na barriga, mudança na rotina, muitas coisas prestes a acontecer. Hoje mesmo já estou perdendo um domingo de muito sol, e estou aqui, casa vazia, não aceitei convites para sair, para beber cerveja, para ir para a praia, já desencanei do cinema. Difícil essa vida.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Tragédia

Em tempos de tragédia, é bom não estar no Brasil, e não sofrer com a enchente de notícias e análises e opiniões e depoimentos e críticas e desculpas. Daqui do Canadá, o acidente em Congonhas ganhou alguns minutos na mídia, mas foi esquecido rapidamente.
O chato dessa história é tentar conversar com os gringos sobre o incidente, pois isso sempre vira assunto em rodas em que se conhece a minha nacionalidade. E haja fôlego:
  • Não, não há conhecidos ou parentes meus entre as vítimas. Somos 180 milhões de habitantes, e não um grande família. O que eu não conto é que, sim, eu tenho uma amiga aqui em Montréal que tem uma amiga no Brasil cujo noivo francês estava trabalhando no prédio que pegou fogo, e que, até este momento, ainda consta como desaparecido. Tento não compartilhar esse sentimento com as pessoas aqui, mas é impressionantemente perto.
  • É claro que é seguro viajar de avião no Brasil. Historicamente, as chances de morrer em um acidente de avião são menores do que de morrer atingido por um raio ou eletrocutado no chuveiro elétrico por ter esquecido de desligar a chave central antes de se meter a eletricista. Mesmo analisando os dados parcialmente e pensarmos em 350 mortes nos últimos 10 meses em que 47 milhões de pessoas voaram, a coisa não parece tão catastrófica assim. Mas dois acidentes assim em menos de um ano? Veja bem...
  • Perigoso mesmo é estar no Brasil, e não pousar no Brasil, alguém aí tem as estatísticas de homicídio em São Paulo ou no Rio? O avião é a parte segura da viagem, mesmo com toda essa crise aérea de que se tem falado tanto. O que me deixa apreensivo na minha próxima ida para o Brasil não é o aeroporto, mas sim a criminalidade fora dele. Mas este é outro ponto em que também tento não ser muito enfático com o povo daqui.
  • Sim, sim, faz tempo que se sabe dos problemas estruturais da pista de Congonhas. Até o presidente já havia posto gente pra trabalhar nisso, e acionado todas as forças para resolver a questão. E por quê diabos não foi resolvido e nada foi feito? Bom, 'nada' é uma palavra muito forte, e nada é tão simples assim.
  • Um depósito de combustível no final de uma pista de pouso? Bom, é natural que depósitos de combustível tenham que ser construídos perto do aeroporto, mas bem no final da pista? De uma pista curta? E escorregadia? E sobrecarregada?
  • O piloto, sabendo das condições agravadas pela chuva daquele dia, não deveria ter pousado um pouco mais no começo da pista?
E para cada ponto desses, tem sempre uma piadinha dos gringos, um sorriso malicioso que resume tudo: coisas de terceiro mundo, de país sub-desenvolvido, de povo ignorante. E é muito difícil de explicar que não é bem assim. E impossível de entender.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Ponto de vista

Arco-íris em um dia aleatório de um Julho chuvoso em Montréal.

sábado, 14 de julho de 2007

Homenagem

Pequena homenagem, no quadro da cozinha, aos 218 anos da Queda da Bastilha, simbolizando a admiração dos integrantes deste nosso porão à história francesa, ao povo francês em geral, e a alguns franceses, especificamente. Vive la Republique! Vive la France!

quarta-feira, 11 de julho de 2007

I quit! (2)

Fiquei impressionado de como o meu emprego atual aceitou mal o meu pedido de demissão. Um ambiente pouco cooperativo, que paga mal, com troca de empregados muito grande, horários terríveis, respeito nenhum pelo capital humano, e mais um monte de merda pela qual passam os pobres que tiveram a sorte de conseguir um emprego mas o azar de consegui-lo nesta companhia, imaginei que eles estariam um pouco mais acostumados a ter gente abandonando o barco.
Muito educamente, comuniquei ontem que começaria um novo emprego em duas semanas, e que portanto trabalharia só até o final desta semana, e que tiraria os meus dias acumulados no banco de horas por ter trabalhado nos últimos quatro feriados na semana que vem. Grande foi a minha surpresa quando a minha supervisora veio conversar comigo na minha mesa (primeira vez nos 6 meses que trabalhei lá) e dizer que eles não iriam me dar esses dias, pois já haviam caducado. E começou ali um leva-e-trás de recados, eu de um lado, e alto gerenciamento mais RH de outro, que culminou em um email meu em que eu anunciava conhecer os meus direitos, e me mostrava disposto a levar o assuntos a instâncias superiores de proteção aos trabalhadores caso eles realmente me privassem do dinheiro que me deviam.
Finalmente, acabaram por fazer muita cara feia, mas deram pra trás. Hoje foi meu último dia, vão me pagar os próximos quatro dias para eu ficar em casa, e vão terminar o meu contrato. E ainda se fizeram de ofendidos, com o argumento de que eu não estava respeitando o acordo tácito (não é uma regra!) de comunicar o abandono do emprego com 15 dias de antecedência. Eu estava tentando ser gentil, mas tive que mostrar os dentes, quando começaram a tentar me passar pra trás. E eu acredito que esse tipo de atitude deve render a eles alguns trocadinhos, dos quais duvido que realmente precisem. Pra mim, 400 dólares é muita coisa, mas eu brigaria até o final também por fazer valer o que é meu de direito.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Oferta

There’s only so much you can learn in one place.
The more that I wait, the more time that I waste.
Are you ready to jump?
Yes, I’m ready to jump!
Madonna
Depois de uma prova técnica, e duas entrevistas, recebi hoje a boa notícia: a companhia Electronic Arts me fez uma proposta de emprego para trabalhar portando jogos entre plataformas móveis, como celulares, iPods e PDAs. Salário melhor, bônus no final do ano, férias mais longas, horário flexível, ações da empresa, plano de saúde a partir do primeiro dia, enfim, um conjunto abrangente de benefícios, e a promessa e esperança de dar o primeiro passo em uma nova carreira. E a cereja por cima: carreira em jogos de computador, que acaba levando tantos gordinhos de óculos como eu a fazerem as engenharias e ciências de computação mundo afora.

sábado, 7 de julho de 2007

Lua

I see the moon
And the moon sees me
And the moon sees somebody I want to see
God bless the moon
And Gob bless me
And God bless somebody I want to see
(cantiga de ninar)
Essa é para os que estão longe, do outro lado do continente, do outro lado do oceano, a lua nos vê todos, e que Deus nos abençõe!

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Moicano

"Curto" - respondi quando a cabeleireira me perguntou como eu queria o corte. Mas essa raça sabe brincar com as nossas cabeças, literalmente ou não, e acabei por ser convencido de que um corte que deixasse o cabelo mais comprido em cima, num estilo meio moicano, ficaria muito bem em mim, por causa do formato do meu rosto, tipo de cabelo, e está na moda, e vai ficar ótimo, e isso, e aquilo.
Eu só queria o cabelo curto para uma entrevista, e para evitar a fadiga deixo sapatearem na minha cabeça. Raciocinei que como nunca havia visto a mulher na vida, ela não teria motivos para mentir pra mim, e que provavelmente gostaria de me ter como cliente no futuro próximo, e que talvez a sua experiência talvez lhe sirva de alguma coisa. Fui adiante com a brincadeira, mas mais calmo por ter sido assegurado que eu poderia a qualquer momento escolher voltar à minha caretice capilar cotidiana sempre que assim desejasse, simplesmente não pondo o cabelo pra cima.
No final das contas até que não ficou ruim, e estou até adotando o estilo. Mas um pouco atrasado, pelo jeito, pois agora parece que para todos os lados que olho tem meia dúzia de moicanos. Estou me sentindo o último deles, mas pelo menos parte do grupo.

domingo, 1 de julho de 2007

Mudança

Por motivos que eu ainda não consegui entender, 70% dos contratos de aluguel em Montréal terminam no mesmo dia: primeiro de Julho.
Este dia, coincidentemente, é também Canada Day, que aparentemente é muito pouco celebrado no Québec, pois o povo tem a desculpa de estar ocupado com a mudança.
Ou seja, é uma data muito boa para achar todo tipo de tranqueira na rua, no meio daquilo que os outros classificaram como lixo. Colchão, sofá, televisão, livros, discos, móveis, vidas e privacidades alheias vão se empilhando nas esquinas e nos cantos, esperando que alguém as recolha para uso próprio ou então o triste destino da próxima visita do caminhão de reciclagem.
Eu não tenho contrato com ninguém, somente acordos de cavalheiros, mas também acabei mudando neste dia, e agora estou em casa de novo. Ganhei uma cama usada e lençóis limpos, herdei móveis antigos e empoeirados, um porão úmido e com paredes manchadas, mas é a minha casa de novo, finalmente.