quarta-feira, 30 de maio de 2007

Quo vadis?

Ce qui sauve c'est de faire un pas. Encore un pas. C'est toujours le même pas que l'on recommence...
Antoine de Saint-Exupéry
No Brasil, eu falo inglês fluente; no Canadá eu não falo francês direito. No Brasil, eu me formei em uma universidade grande e reconhecida; no Canadá, eu estudei em um país de terceiro mundo de onde não se conhece nada sobre a educação. No Brasil, eu tenho experiência de trabalho em grandes empresas; no Canadá, meu histórico de empregos é praticamente ignorado. No Brasil, família, amigos, à disposição; no Canadá, meus botões. No Brasil, a minha cultura, o meu jeito; no Canadá, sempre uma nova dança.
Aqui são novos desafios, diários, eternos: aprender, conhecer, entender, observar, adaptar-se, esforçar-se. Muitos passos, uma longa caminhada solitária na tentativa de conquistar muito do que eu já tinha. Cada passo é sempre o primeiro da jornada, mas sempre o mesmo passo. E em cada um dele, muitas pedras, novas pedras. E caminhando vou.

domingo, 27 de maio de 2007

Ponto de vista

Povo da região de Montréal aproveitando o calor na praia de Oca, às margens da junção dos rios Ottawa e São Lourenço.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Preces

Gostaria de agradecer aos leitores desse panfleto eletrônico que se sensibilizaram com a minha situação no abominável inverno do norte distante, e direcionaram suas preces para aliviar o meu sofrimento. Este vai ser um verão e tanto!
Aí eu me pergunto se este ano vamos conseguir mudar os números das estatísticas históricas:

  • 150 - número de dias no ano, em média, em que a temperatura mínima em Montréal atinge níveis inferiores a 0ºC;
  • 12 - número de dias no ano, em média, em que a temperatura máxima em Montréal atinge níveis superiores a 30ºC.
Máxima prevista para hoje: 31ºC. Máxima registrada ontem: 30ºC. Ou seja, estamos desperdiçando os poucos dias de calor, pois eu estou aqui, dentro do escritório, no ar-condicionado.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Clima

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Chico Buarque
Segundo um estudo de uma ONG britânica, 1 bilhão (!!!) de pessoas vão ser obrigadas a migrar por causa de catástrofes ambientais, conflitos locais, e aquecimento global.
Eu, muito provavelmente, já estou dentro das estatísticas, pois vimbora fugido do pé-de-guerra em que se encontra São Paulo. Mas aí eu fico pensando, será que esse povo vai vir todo pro Canadá também? Eu diria que sim, pois os canadenses não estão colaborando muito, e continuam fazendo poucos canadensezinhos, e com isso vão mantendo a porteira aberta! E com as mudanças no clima, daqui a pouco isso aqui vai ser um paraíso tropical!
Será que cabe todo mundo?

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Festas

Terceira segunda-feira de maio, no Québec: Fête des Patriotes, que comemora a herança dos patriotas das Rebeliões de 1837, que entraram em conflito com a Coroa exigindo democracia através de uma reforma política na então província de Lower Canada.
Exato mesmo dia, no resto do Canadá: Victoria Day, feriado nacional, comemorando o aniversário da Rainha Vitória.
Hoje, em Montréal: um dia lindo, meio friozinho, mas muito sol e céu azul.
E eu aqui, trabalhando feito bobo, com tanto motivo para celebrar lá fora.

domingo, 20 de maio de 2007

Tulipas

Há flores por todos os lados
Há flores em tudo que eu vejo
Titãs
Aproveitei o bom tempo para finalmente visitar a capital federal, onde passei o final de semana com dois amigos. No domingo terminou o Festival das Tulipas em Ottawa, época em que a cidade quase se afoga em tanta flor, em cada canto para o qual se possa olhar nos espaços públicos.
Um pouco de história: na Segunda Guerra Mundial, enquanto a Holanda estava ocupada pelos nazistas, a família real holandesa estava refugiada no Canadá, e a Rainha Juliana estava grávida. As leis daquele país impediriam o seu filho de entrar na linha de sucessão se ele nascesse fora da Holanda. O Canadá estabeleceu então que o quarto do hospital onde estava a Rainha se tornasse um anexo da embaixada holandesa, ou seja, território holandês, contornando assim a regra de sucessão ao trono.
Como gesto de gratidão, a Holanda envia ao Canadá, desde então, 10.000 bulbos de tulipas todos os anos. E como os bulbos não morrem, e voltam a florir ano após ano, tem flor saindo pelo ladrão em Ottawa.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Moeda

Ontem quase tive uma síncope ao voltar para casa do meu curso de francês, mal agasalhado como resultado de um pico espúrio de otimismo com relação ao tempo. Frio úmido, daquele que penetra nos ossos, faz uma reviravolta lá dentro, e sai pelo outro lado, pra continar fazendo estrago. Mas com 50% de chance de neve na noite passada, o cara-ou-coroa acabou caindo do lado bom, e ficamos só com o vento e a chuva.
Segundo estatísticas históricas, Montréal tem em média 150 dias por ano em que a temperatura baixa abaixa abaixo de zero, e 12 dias por ano em que a temperatura alta fica acima de 30ºC. Me mandem um email quando voltar a fazer calor, por favor.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Circuito

Ontem aproveitei o sol forte e ventinho frio para me aventurar no circuito de Fórmula 1 aqui de Montréal. E fui todo cambaleante, com os meus patis novos, tentar me matar dando volta naquela imensidão, enquanto o povo todo me ultrapassava de patins, bicicleta, alguns até à pé! As crianças achavam engraçado a minha falta de jeito, os adultos me davam dicas de como ficar de pé em cima daquele monte de rodas, e todos sumiam lá na frente. Depois de uma volta inteira (levemente roubada, pois peguei um 'atalho' lá pro meio do caminho), eu já estava de língua de fora, bolhas nos pés, seco de sede e molhado de suor. Mas as novas sinapses agradecem.
Detalhe é que o circuito já está sendo preparado para a corrida agora daqui algumas semanas. Os muros estavam sendo pintados com as cores dos patrocinadores, e parte da arquibancada já estava de pé. A Fórmula 1 é mais um dos grandes eventos no verão daqui, e embora eu não seja um grande fã, é bom saber que existe um circuito enorme, com asfalto lisinho, suficientemente plano e fácil de chegar para eu me testar nestes esportes radicais em que eu me meto depois de velho.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Previsão

Tenho que admitir que eu sou um pouco nerd, mas essa superou todas: na noite anterior à entrevista de que falei no último post, sonhei com polimorfismo, um conceito em linguagens de programação orientadas a objeto. Raramente sonho com alguma coisa, acho que nem dá tempo, e na verdade nem sei se sonhei mesmo, mas sei que acordei pensando no tal do negócio. Curioso, aproveitei para pesquisar um pouco e me refrescar a memória.
Não é que me chegando lá, uma das primeiras coisas que me pediram para explicar foi o danado do polimorfismo?
Eu não acredito em previsões, nem em sensibilidades para essas coisas, mas só pra garantir estou dormindo com papel e caneta acessíveis para o caso de eu sonhar com os números da mega-sena alguma dessas noites...

Conhecimento

Semana passada fiz uma entrevista de emprego muito boa em uma multinacional alemã para uma vaga de desenvolvimento de software. A vaga parecia muito interessante, assim como o projeto, e a equipe com quem eu trabalharia. Vendi o meu peixe, falei bastante, tentei impressionar e acho que até consegui, mas segundo os meus entrevistadores eles buscavam alguém com um perfil mais técnico, e que ainda assim tivesse um compromisso com a qualidade, que buscasse a perfeição, que se desse bem trabalhando em times, e tudo mais. Retruquei que eu encaixava muito bem no perfil, mas que só não tinha a experiência tão longa com aquilo que eles estavam buscando: algo fácil de corrigir, portanto. Para dar fim no argumento, eles disseram que não achavam que eu ia me sentir bem na posição. Mal sabem eles do meu emprego hoje...
De qualquer forma, fiquei um pouco mais animado, pois me garantiram que iam me indicar para um outro departamento onde a minha vasta experiência com um monte de coisas desconexas talvez fosse de alguma utilidade. Uma maneira educada de me dispensar, mas ainda assim útil para inflar leve e momentaneamente o ego.
Saber um pouco sobre um monte de coisa aparentemente não é tão interessante quanto saber um monte sobre algo específico. Saber muito, neste caso, é quase o mesmo que não saber coisa alguma.

terça-feira, 8 de maio de 2007

Demissão

André Boisclair, chefe do separatista Parti Québécois, não resistiu às pressões internas que pediam sua cabeça depois dele ter liderado as eleições que colocaram o partido em terceiro lugar depois de décadas oscilando entre situação e oposição, e pediu demissão hoje. Ele continua como deputado, mas não mais na posição mais importante do partido.
Abertamente homossexual, e tendo admitido ter usado cocaína enquanto deputado, para mim ele sempre foi a figura que encarnava a mentalidade plural, liberal e sem preconceitos dos cidadãos do Québec. Nem tanto, pelo jeito.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Ininteligível

Um tempo atrás, estava eu sentado, na escada da porta de casa, fazendo uma fotossíntese tranquilamente e pensando nas pendengas da vida, quando a vizinha de cima abre a sua porta e me cumprimenta.


















Vizinha:
Es-tu un ami d'Alexis?
(Você é um amigo do Alexis?)

Eu:
Non, je suis son nouveau coloc.
(Não, eu sou o novo colocatário dele.)

Vizinha:
[pensa um pouco] Son frère???
(Irmão dele???)

Eu:
Non, son coloc.
(Não, colocatário)

Vizinha:
[pensa mais um tantão] Ah... son coloc!
(Ah... colocatário!)

As pessoas pensam que é zueira quando eu digo que em francês eu pareço a professora do Charlie Brown falando. A boa notícia é que, ao contrário dos franceses com quem eu tentava me comunicar quando morei em Nantes, na França, pelo menos os locais aqui são simpáticos, e fazem um esforço para entenderem e serem entendidos. Tá certo que este esforço normalmente culmina em passar para o inglês, o que mina e elimina a já pouca boa vontade de falar em francês, mas pelo menos a comunicação não é tão comprometida.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Produto

Todo marketeiro e o seu cachorro sabem que produto algum atinge o sucesso se ele se parece com os outros produtos disponíveis no mercado. E que mesmo quando ele ainda assim é diferenciado, pode ser que a estratégia de comunicação desse valor não seja tão eficaz, fazendo com que um bom produto encalhe na prateleira.
Eu não acredito ser o melhor produto no mercado desde a invenção do pão fatiado, mas sei que tenho muito a oferecer. Também sei que a comunicação dessas minhas capacidades deve ser refinada, não para distorcer, mas para melhor refletir tudo do que eu realmente acredito ser capaz.
Estou de saco cheio do meu emprego, então vou refazer meu currículo, comunicar as minhas habilidades, encher lingüiça, ser menos modesto. Vamos ver no que é que dá!