sexta-feira, 27 de abril de 2007

Férias

Ginásio de esportes, quadra principal, 40 filas de 18 carteiras, muito calor e movimento, pelo menos 600 alunos fazendo suas provas finais de todo o tipo de curso.
E eu lá no meio, uma multidão em todas as direções, escrevendo feito um desesperado por três horas seguidas na minha prova de Marketing, que teve 10 questões dissertativas de uma página cada.
Quando saí, não sabia nem em que ano estávamos mais, de tão zureta, com as lentes de contato mordendo meus olhos secos, e a marca vermelha profunda e exata deixada pelo lápis nos dedos da mão direita.
Pelo menos acabou. Dois cursos se foram com o termo de inverno, e outros oito ainda sobram. Agora é relaxar e esperar o semestre de verão começar. Na terça.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Espelho


Se é sabido que os objetos no espelho estão mais perto do que eles parecem, quando é que nós realmente nos afastamos daquilo que vemos refletido? E por quê motivo?
O que é que nos faz perder de vista as nossas metas, os nossos sonhos, as nossas ambições? Como acreditar que eles realmente estão mais perto, quando eles às vezes parecem tão longe?
Como acreditar naquilo que vemos se não sabemos se o objeto refletor é plano, côncavo, convexo, tortuoso, fiel, imparcial, liso, ou de qualquer outra forma que influencie as respostas que nele procuramos?

Ponto de vista

Hora do almoço na McGill.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Energia

Ao sair do trabalho, mudei de direção no caminho do metrô, eu não queria mais ir embora estudar, eu precisava absorver um pouco daquele excesso de energia do ambiente, do céu aberto, da luz.
Fui pra faculdade, impressionado com o tanto de gente que teve a mesma idéia, tirei os sapatos, arranquei as meias, larguei a mochila, joguei a jaqueta, arregacei as mangas, ergui as pernas da calça, deitei em um lugarzinho bem ensolarado com aquele cheiro forte de grama e umidade, e cochilei tranquilamente, ao zunido daquela atividade toda à minha volta.

Imposto

Agora nesta época de entregar o imposto de renda, os canadenses têm reclamado muito sobre o tanto de imposto que é pago para as três esferas do poder. Um estudo de um instituto independente concluiu que 45% da renda média da população vai para o apetite do governo, mais do que alimentação, moradia e roupas, juntos. Eu, até hoje, paguei 23,62% só sobre a minha já baixa renda, além da alta taxação sobre todo o consumo.
Falar sobre impostos é como conversar sobre o tempo por aqui, todos têm a sua opinião e táticas sobre como melhor contornar o inevitável.
Embora este estudo tenha levado em conta a média canadense, sabe-se que a carga tributária no Québec é ainda mais alta do que nas outras províncias, pois sustenta mais políticas sociais para os menos afortunados.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Enquanto isso...

... o bicho pega, a cobra fuma, a porca torce o rabo, o Lula dorme, e todo o zoólogico se assusta com a violência no Brasil. Aqui, pouca coisa chega, mas o que transpõe as fronteiras assusta.
RadioCanada.ca: Affrontements meurtriers à Rio

terça-feira, 17 de abril de 2007

Rigidez

Pegando um gancho na tragédia de ontem nos Estados Unidos, o jornal canadense The Globe and Mail fez uma enquete entre os seus leitores online para levantar o questionamento sobre maiores regulamentações no porte de armas aqui.
Apesar da pergunta intencionalmente mal formulada ("O Canada precisa criar controles mais rígidos para prevenir incidentes similares?"), os opinantes aparentemente não se deram por convencidos de que mais restrições aos seus direitos devem ser estabelecidas, o que me me parece ser típico dos canadenses, mesmo após um incidente com tantas mortes. Montréal teve um caso parecido em setembro passado (Dawson College, um morto, 19 feridos).
Detalhe: o porte de arma é autorizado aos cidadãos da Virgínia, mas não na universidade - o que leva muita gente a defender regras menos rígidas para o porte de armas, pois um estudante armado poderia ter terminado o massacre mais cedo.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Coragem

O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.
Guimarães Rosa
Depois de um final de semana sabático entre amigos, muita comida, risadas, jogatina, bobagens em francês, um poco de todo y otras cositas más, nesta segunda brava tudo volta à entediante normalidade do trabalho que mata e dos estudos que acabam de pisar em cima. Coragem, Guimarães Rosa, é disso mesmo que a gente precisa! Que venha o empenho com ela também!

domingo, 15 de abril de 2007

Um pouco mais longe

Tenho estado muito musical nestes útimos tempos, redescobrindo e revivendo tanta coisa boa que andava meio esquecida na minha coleção de MP3's. E nessa, também tenho estado bem receptivo ao que ando ouvindo por aqui.
Ginette Reno é uma cantora e atriz québécoise, um símbolo muito importante para as pessoas aqui, e talvez a personalidade local mais conhecida no mundo depois da Céline Dion.
Esta música diz bastante sobre muita coisa na minha vida nos útimos tempos, principalmente a decisão de vir para o Canadá.

Un Peu Plus Loin
Letra: Jean-Pierre Ferland
Interpretação: Ginette Reno

Un peu plus haut, un peu plus loin
Um pouco mais alto, um pouco mais longe
Je veux aller un peu plus loin
Eu quero ir um pouco mais longe

Je veux voir comment c'est, là-haut
Eu quero ver como é lá no alto
Garde mon bras et tiens ma main
Segure meu braço e segure a minha mão

Un peu plus haut, un peu plus loin
Um pouco mais alto, um pouco mais longe
Je veux aller encore plus loin
Eu quero ir ainda mais longe
Laisse mon bras, mais tiens ma main
Solte meu braço, mas segure minha mão
Je n'irai pas plus loin qu'il faut
Eu não irei mais longe que o necessário

Encore un pas, encore un saut
Mais um passo, mais um salto
Une tempête et un ruisseau
Uma tempestade e um riacho
Prends garde! Prends garde: j'ai laissé ta main
Cuidado! Cuidado: eu soltei a sua mão
Attends-moi là-bas: je reviens
Me espere lá embaixo: eu vou voltar

Encore un pas, un petit pas
Mais um passo, um pequeno passo
Encore un saut et je suis là,
Mais um salto e eu chego lá
Là-haut, si je ne tombe pas...
Lá em cima, se eu não cair
Non! J'y suis! Je ne tombe pas!
Não! Cheguei! Eu não caio!

C'est beau! C'est beau!
É belo! É belo!
Si tu voyais le monde au fond, là-bas
Se você visse o mundo ao fundo, lá embaixo
C'est beau! C'est beau!
É belo! É belo!
La mer plus petite que soi
O mar menor do que a gente
Mais tu ne la vois pas
Mas você não o vê

Un peu plus loin, un peu plus seul
Un pouco mais longe, un pouco mais sozinho
Je n'veux pas être loin tout seul
Eu não quero estar longe sozinho
Viens voir ici comme on est bien
Venha ver aqui como se está bem
Quand on est haut, oh! comme on est bien
Quando se está em cima, oh! como se está bem

Un peu plus haut, un peu plus loin
Um pouco mais alto, um pouco mais longe
Je n'peux plus te tenir la main
Eu não posso mais segurar a sua mão
Dis-moi comment j'ai pu monter,
Me diga como eu pude subir
Comment r'descendre sans tomber
Como eu volto a descer sem cair

Un peu plus haut, un peu plus fort
Un pouco mais alto, um pouco mais forte
Encore un saut! Essaye encore!
Mais um salto! Continue tentando!
Je voudrais te tendre les bras;
Eu quero te segurar os braços
Je suis trop haut, tu es trop bas
Eu estou muito no alto, você está muito embaixo

Encore un pas, un petit pas
Mais um passo, um pequeno passo
Tu es trop loin! Je t'aime!
Você está longe demais! Eu te amo!
Adieu! Adieu! Je reviendrai
Adeus! Adeus! Eu voltarei
Si je redescends sans tomber
Se eu voltar a descer sem cair

C'est beau! C'est beau!
É belo! É belo!
Si tu voyais le monde au fond, là-bas
Se você visse o mundo ao fundo, lá embaixo
C'est beau! C'est beau!
É belo! É belo!
La mer plus petite que soi
O mar menor do que a gente
Mais tu ne la vois pas
Mas você não o vê

[esta parte não está nesta versão da música]
Un peu plus haut, un peu plus loin
Un pouco mais alto, um pouco mais longe
Je veux aller encore plus loin
Eu quero ir ainda mais longe
Peut-être bien qu'un peu plus haut,
Talvez ainda um pouco mais alto,
Je trouverai d'autres chemins
Eu encontrarei outros caminhos

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Esmola

Voltando da aula, entrando no metrô, fui abordado por um mendigo me pedindo um dinheirinho. Como ele estava falando em francês, e eu realmente não estava entendendo patavina, retruquei em inglês que eu não falava francês, já me esquivando. Para a minha surpresa, o pedinte desembestou a falar num inglês perfeito com um sotaque levemente francês, explicando que ele dorme nas ruas e queria um pouco de dinheiro pra comprar uma cerveja. Como eu também queria uma cerveja naquele momento, acabei por me compadecer do sujeito, que levou uma moeda de dois dólares: um dólar pelo inglês, outro pela honestidade.
"Aproveite a cerveja" - me despedi.
"Com certeza" - ele respondeu.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Marco

Hoje, depois de exatos quatro meses da minha chegada em Montréal, tomei uma decisão tardia mas necessária para a minha volta nos trilhos: me inscrevi em um curso de conversação em Francês, na Concordia.
Eu já devia ter feito isso há muito mais tempo, mas acabei sendo iludido com a falsa idéia de que a simples imersão cultural daria conta de me tornar mais hábil na língua local, como aconteceu há 10 anos quando aprendi inglês na Columbia Britânica.
Hoje, uma rápida auto-análise me leva à conclusão de que neste tempo aqui, eu não me afastei tanto do perfil de imigrante que sempre critiquei: aqueles que vivem, moram, trabalham, se reproduzem, comem, falam em suas próprias culturas e línguas, mas só em um cenário diferente.
Não me arrependo de ter esperado até agora, pois o emprego, que não estava nos meus planos para tão rápido, e a súbita carga exigida pela faculdade foram escolhas conscientes e também necessárias para a minha adaptação aqui.
Mas agora acabou a brincadeira. Eu não sou mais um novato, não acabei de chegar aqui, já estou trabalhando, estudando, e a falta do francês está me puxando pra trás. Será que agora vai?

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Feriado

Este feriado de Páscoa está mexendo um pouco com o meu relógio biológico sasonal. Friozinho, nevando, tá tudo com muita cara de Natal, isso sim. Só falta E.T. na sessão da tarde.
Aliás, feriado para os que podem, pois eu estou aqui na labuta. Troquei a minha Sexta-Santa-Claus pela sexta seguinte em que eu vou ter prova. Santa paciência!

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Luz

Lentamente as coisas vão desempilhando, e eu começo a acreditar que desta vez não é o trem que vem vindo de novo para me sufocar.
Semana passada foi a apresentação do nosso projeto final de Marketing na faculdade. A apresentação foi muito boa, mas refletiu bem a participação dos integrantes do grupo no trabalho: uns se dedicaram um tanto a mais, outros um tanto a menos. Hoje é o relatório final deste mesmo projeto que deve ser entregue, e para este, eu assumo que eu acabei fazendo a maior parte do trabalho. Minha necessidade de controle e perfeição, acomodada junto ao pouco empenho do resto do pessoal me resultou em longas horas para deixar tudo do meu jeito. Ou quase tudo, pelo menos.
Semana que vem é o exame final de Contabilidade, e na seguinte o de Marketing. Como diria o Clodovil: "Será que eu chego?"

terça-feira, 3 de abril de 2007

Trabalho de fome

Esta é a realidade da empresa onde eu trabalho:
Triste? Não pra mim, eu sou o 'starving elbonian'. (Hat tip: Fafa)

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Horizontes

A melhor coisa até agora nesta volta às temperaturas racionais é poder andar do lado de fora com a cabeça erguida. Em tempos de vento frio soprando para todos os lados, todo mundo anda com o rosto abaixado, na tentativa de melhor proteger o pescoço do frio e os olhos do vento.
Hoje já é possível mirar o horizonte, e até contemplá-lo.