sexta-feira, 30 de março de 2007

Degelo na educação

Ontem, no curto caminho entre trabalho e faculdade, sem querer acabei caindo no meio de uma manifestação de estudantes pós-secundários protestando contra os planos do primeiro-ministro reeleito de aumentar as taxas de escolaridade, com a leniência do chefe da oposição. Essas taxas estão congeladas desde 1994.
Atrás de um carro de som, estudantes com cartazes e faixas interditavam o trânsito do centro da cidade na hora do rush, com o lógico argumento de que a educação é um direito, e não um privilégio, o que deveria garantir a sua gratuidade. Guiados por carros de polícia para garantir a segurança, a manifestação ia se movimentando lenta e pacificamente pelas ruas sob os olhos e ouvidos atentos dos transeuntes.
Eu já disse aqui que se eu fosse o ditador de algum país, eu ia preferir que as pessoas tivessem o máximo de educação que elas quisessem. E que não concordo com o estado sendo gerido como uma empresa, atento na conta de dólares entrando menos dólares saindo.
Mas minhas inclinações para a direita me fazer pensar que se o dinheiro é finito e as escolhas são muitas, todos temos um pequeno preço a pagar. A educação aqui já é altamente subsidiada. Existem muitas bolsas de estudos para quem não pode pagar, e uma parcela grande das pessoas paga os estudos depois de começar a trabalhar, através de empréstimos a juros baixos e com pagamentos a perder de vista. O direito democrático manifestação nunca deve ser tolhido, mas será que esse pessoal não está reclamando demais?

quinta-feira, 29 de março de 2007

Capitão caverna

Vida nova, casa nova, novos ares, foi uma semana de mudanças. Fiz a barba que eu estava ignorando havia 4 semanas, e cortei os cabelos que não receberam tal tratamento por 3 meses. Não que eu seja nenhum capitão-caverna, mas parece que agora eu estou até respirando melhor.
O início da Primavera me trouxe a clarividência de que, embora eu não seja lá muito flor que se cheire, a cara suja não faz justiça às minhas atitudes de bom moço. E mais, ela ainda joga contra o meu estado de pseudo-euforia, atitude auto-enganotória na qual me engajo na vã tentativa de parecer já desatormentado pelos velhos fantasmas.

terça-feira, 27 de março de 2007

Resultado das Eleições

Especial para o degelo

Ontem foi dia de eleição aqui no Québec, e a vitória foi para o Partido Liberal, que já está no poder.
O sistema parlamentar com voto distrital divide a população geograficamente em distritos com igual número de eleitores. Cada um desses distritos elege um parlamentar, e o cargo do primeiro ministro, chefe do governo (mas não chefe do Estado, função que pertence à Rainha), vai para o líder do partido com o maior número de parlamentares.
Em governos majoritários, onde o partido no poder tem não só a maior parte dos parlamentares, mas também a maioria deles, a situação do primeiro ministro fica mais confortável, que pode implementar com mais facilidade seu plano de governo. Governos minoritários como desta vez (com 46 dos 125 parlamentares) não eram eleitos desde 1878 no Québec, e garantem um maior debate de idéias, e mais lutas políticas.
O líder da Ação Democrática do Québec, com o segundo maior número de parlamentares, virou o chefe da oposição, e surpreendeu todos os analistas, fazendo de seu partido, antes desconhecido, um jogador importante na política local.
O Partido Québécois, que ficou em segundo em todas as pesquisas, terminou a corrida com um terceiro lugar bem próximo dos outros dois. Com um discurso constantemente separatista, ele e o seu partido provavelmente vão fazer um exame de consciência, e tomara que entendam que a discussão sobre a separação do Québec já se estendeu por tempo demais, e que a população quer agora novas idéias.
Ou seja, a dicotomia política federalista-separatista dominante na província há mais de três décadas é que foi a grande derrotada: ambos os partidos da situação e oposição oficial querem continuar lutando pelo Québec, mas unidos ao Canadá.
Mais informações em: http://www.radio-canada.ca/nouvelles/electionsQc2007/lesSuites.shtml

terça-feira, 20 de março de 2007

Assurance Maladie

Semana passada recebi o meu cartão do sistema de saúde provincial, pois completei os três primeiros meses de carência no Québec, período em que os imigrantes não têm direito à gratuidade nos serviços de saúde. Ou seja, da próxima vez que eu precisar ir até o hospital por algum motivo besta qualquer, eles não vão poder tentar me extorquir 500 dólares só pelas 'despesas de hospitalização', mais os honorários médicos, e eu não vou precisar sair de lá com o rabo entre as pernas me sentindo um sub-cidadão e querendo minha mãe, por não ter dinheiro suficiente para pagar por um desconchavo desses.
Agora eu já posso voltar lá e entrar de cabeça erguida, e ser tratado tão mal quanto os outros pacientes com um cartão igual ao meu (ou seja, todo mundo). É um conforto.
Além disso, junto com a minha carteira de motorista, ele serve como um segundo documento de identidade com foto, pois dois são sempre necessários em qualquer situação que o Brasil requereria só um xerox do RG.

quarta-feira, 14 de março de 2007

Março

É pau, é pedra, é o fim do caminho
Tom Jobim
Voltando pra casa, enrugo a testa no esforço para ver através da neblina que de repente abaixou sobre Montréal. A combinação meteorológica de chuva-humidade-temperatura, as luzes amarelas, a ausência de pedestres e o esplashar dos carros nas poças criaram um clima monocromático e silencioso. Fiquei sufocado, senti medo.
E assim como veio, não tardou muito a também ir embora. Deixou a humidade, o restinho da chuva pingando, o cheiro do vento, as enxurradas do derretimento da neve, e a grama que foi coberta ainda verde, e que desta cor continuou. Ainda escuro, mas visível, um ar denso, mas leve.
Muitas coisas estão mudando em todos os lugares, dentro e fora. Saudosista, não gosto de mudanças, mas desta vez estou me depositando a confiança necessária, e criando forças que nunca imaginei ter.

sábado, 10 de março de 2007

Verão, segundo os relógios

Nesta noite fria de fim de inverno, o Canadá entra no horário de verão, algumas semanas mais cedo do que o habitual, seguindo o calendário americano que prolongou o período na tentativa de economizar energia. Alguns especialistas aqui estão duvidando um pouco dessa história, e argumentando que esse mês extra de horário de verão não vai trazer economia porcaria nenhuma. A área de informática ficou um pouco apreensiva, pois os equipamentos programados para fazer a mudança de horário só o fariam com 3 semanas de atraso, e os medos surgidos no bug do ano 2000 voltaram em pequena escala.
Mas eu coloco as desconfianças e medos de lado, e penso egoisticamente ao bocejar esticando os braços: ótimo! Como ainda estou trabalhando no horário do Brasil, o horário de verão vai me permitir acordar um cadim mais tarde, pois a diferença entre lá e cá vai diminuir uma hora (os mais atentos vão perceber que na verdade eu vou continuar acordando no mesmo horário, é o Canadá inteiro que vai passar a acordar uma hora mais cedo - mas tudo bem, ainda assim, já tá valendo).

sexta-feira, 9 de março de 2007

Resultados

Esta semana recebi os resultados das minhas provas da faculdade: 90% na prova de contabilidade, 85% na prova de marketing. Pas mal, eh? O esforço mostrou a sua recompensa, embora não sejam as notas que motivem a estudar, mas a auto-cobrança da qual eu nunca consegui fugir. Com essas notas, pelo menos, ela dá uma sossegada. Por algum tempo.

quinta-feira, 8 de março de 2007

O 'melhor' país

De acordo com uma pesquisa que entrevistou 28.000 pessoas em 27 países, o Canadá é um dos países mais bem-vistos no mundo. Matutando um pouco sobre isso e lendo opiniões alheias, não consigo deixar de acreditar um pouquinho que na verdade muita gente simplesmente não tem opinião sobre o Canadá, o que acaba resultando em resultados aparentemente mais positivos por causa do método usado na pesquisa. Se está todo o mundo mostrando os dentes uns para os outros em sinal de hostilidade, ser ignorado não me parece tão ruim assim. Podem falar que o Canadá é isopor (sem-sal, sem açúcar, sem cor, bóia na água, sem personalidade), eu estou ficando aqui, bem quietinho no meu canto, longe das grandes animosidades, rancores, aversões e malquerenças de quaisquer extremos.

sexta-feira, 2 de março de 2007

Achados e perdidos

Eu não poderia ter escolhido um dia melhor para ter uma perda temporária da consciência devido a uma anemia cerebral passageira, culminante no extravio da minha carteira: era dia de pagar o aluguel, e ela estava recheada de dinheiro. Quando cheguei em casa e dei falta da bendita, refiz o caminho desde a banca onde tinha usado dinheiro pela última vez: sala de aula, banheiro da faculdade, cantina, corredores. Nenhuma sorte.
Passei por todas as fases da perda em poucas horas: choque (:-O), negação ("Deve estar em algum lugar aqui em casa."), raiva ("@#%&*!!!"), barganha ("Deus, traga de volta a minha carteira que eu serei um bom garoto."), depressão ("Ai de mim..."), e finalmente aceitação de que os 500 dólares e todos os documentos importantes que provam a minha situação legal no Canadá estavam perdidos para todo o sempre.
Tentei até achar sentidos espirituais para a perda, acreditando que esta experiência haveria de ter uma razão, um significado, talvez um sinal que a vida neste mundo capitalista onde se prega o apego ao dinheiro e aos bens materiais que ele traz não seja a opção ideal de felicidade.
Quando os meus laços psicológicos e biológicos (por quê não?) tecidos em relação aos bens perdidos haviam sido finalmente purgardos do meu organismo, recebo uma ligação do pessoal de segurança da faculdade dizendo que um aluno havia encontrado a minha carteira, e entregado a um professor. Liguei para o professor, que me confirmou que nada havia sido retirado de lá de dentro, e que me devolveu a bendita ontem, na faculdade.
Não quero traçar conclusões sobre a honestidade dos povos, e as suas diferenças, mas é bom saber que hoje eu posso esperar este tipo de atitude de estranhos.