segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Caça às bruxas

What's in a name? That which we call a rose
By any other word would smell as sweet.
Shakespeare
Um marroquino que mora no Québec há 14 anos ganhou um processo de $15 mil de uma empresa de quem sofreu discriminição racial. Desconfiado de que a clara evidência de sua ascendência árabe em seu nome poderia ser a causa do seu currículo ser ignorado nas tantas vezes que aplicou para uma vaga, ele fez o teste final para confirmar a dúvida: mandou o mesmo currículo duas vezes para a empresa, um com seu nome real, e um outro com um nome falso bem 'canadense'.
E a sua surpresa não foi grande ao descobrir que enquanto o seu alter-ego recebeu ligações de volta, e inclusive uma entrevista por telefone, onde foi elogiado pelo perfil que bem atenderia a vaga buscada, sua real personalidade com seu nome árabe foi mais uma vez ignorada.
Tudo isso, que tão distante sempre me pareceu, agora bate na minha porta. Será que o Abdalla do meu nome também não tenha sido alvo de de pré-julgamentos na minha busca por empregos? Será que tenho que ter vergonha, fugir do meu nome, do seu significado (Abd-Allah, servo de Alá, segundo minhas pesquisas), das minhas raízes? Isso me lembra o dilema final do personagem interpretado pelo Daniel Day-Lewis, no filme As Bruxas de Salém: além do meu nome, o que é que eu tenho que é realmente meu?
O problema é que os muçulmanos são a bruxa da vez por aqui, visto por muitos como uma ameaça à cultura canadense estabelecida. Embora cristão batizado, isso respinga em mim. Mas isso é assunto para outro post.

Epifania

Neste final de semana fui para Toronto de ônibus, e no meio da viagem de 7 horas fizemos uma parada lanche-e-xixi em Kingston, já na província anglófona de Ontario. No Tim Hortons, uma rede nacional de lanchonetes onde pedi um bagel e um chá para me acalmarem até o meu destino, tive um momento epifânico: eu me sinto como um cidadão de segunda classe por não falar francês direito em Montréal. É um sentimento recorrente, que também me atropelava enquanto morei na Alemanha e na França, e do qual eu me senti finalmente livre simplesmente atravessando a fronteira. Mas este foi apenas um paliativo: a solução não é fugir pro lado de lá, mas sim criar vergonha na cara e estudar francês direito.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

Ganância

Continuando o post de ontem: Lise Thibalt, a Lieutenant-Governor e representante da rainha no Québec, e atual chefe de governo provincial por conta das eleições que estão por vir, ocupa este cargo há 10 anos, e parece que começou a ficar à vontade demais com as mordomias a que sempre teve direito.
Um jornal de Montréal fez algumas pesquisas nas despesas pelas quais ela pediu reembolso, e descobriu que a mulher deve ter uma fome de leão, ou um apetite grande pelo dinheiro público: houve dias em que ela pediu reembolso por três refeições diferentes, em três localidades diferentes, e no mesmo horário.
Um longo caminho até o Canadá, e aqui percebo que não é só no Brasil que os nossos altos impostos passam a virar alvo da ganância dos políticos a que confiamos a tarefa de nos representar. Essa mulher daqui talvez seja peixe pequeno comparada ao cardume de piranhas que infesta a administração pública brasileira, mas pelo menos aqui a comoção parece ser mais apropriada: o primeiro-ministro já avisou que após a eleição no Québec, Lise Thibalt vai ser aposentada da função.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Eleições

Agora é oficial. Por algumas semanas tem-se falado em eleições provinciais, e hoje o fato se consolidou: o parlamento acabou de ser dissolvido, e o escrutínio marcado para depois de passados 33 dias de campanha, ou seja, 26 de março.
O sistema político canadense é baseado no britânico: é uma monarquia constitucional, composta pela Rainha do Canadá, atualmente a Sua Alteza Real Elizabeth II, que é representada além-mar pelos vice-reis. Lise Thibalt tem essa função: ela é a Lieutenant-Governor do Québec, e foi ela que dissolveu o parlamento, e que vai ficar tomando conta da casa até as eleições.
Infelizmente, eu não posso votar antes de completar meu terceiro ano de residência no Canadá e tirar a minha cidadania, mas até lá quero ir conhecendo os sistemas e personagens da dança, e ir preparando minhas opiniões para quando alguém perguntar por elas.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Carnaval

Feriado e paixão nacional. Enquanto o pessoal no Brasil ainda nem voltou a usar roupas para voltar à vida normal na Quarta-Feira de Cinzas, eu vim para a labuta. Como a fonte de trabalho é o Brasil, de onde se emana tudo nesta época do ano, menos trabalho, estes foram dois dias muito calmos.
Por favor, nenhuma alusão à fábula do Esopo sobre a raposa e as uvas (hat tip: Interplexa), mas ainda acredito que é melhor vir trabalhar do que ter que aguentar a mulata-sem-cabeça da Globo no samba de uma nota só que contagia o país no Carnaval.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2007

Ápice

É o ápice. Ponto alto. Periélio, perigeu. É o cume, é o cúmulo. Culminância. O mais alto grau. Hoje faço o meu midterm de marketing, e amanhã faço meu midterm de contabilidade.
Eu estou tão cansado, de saco tão na lua, com tanto sono, que estou com vontade de ficar sem me mexer por uma semana.
Eu admito a minha memória de barata*, mas me parece que trabalhar e estudar nunca foi um problema tão grande, embora os períodos avaliatórios ainda ecoam no meu cérebro como altamente estafantes. Talvez eu me preocupe mais com os estudos do que eu inicialmente me propus. Talvez eu tenha me dedicado a eles menos do que eu deveria durante as últimas semanas. Talvez não seja assim tão fácil trabalhar e estudar. Talvez eu não seja tão matutino a ponto de me sentir bem acordando tão cedo. Ou talvez eu precise dormir e esquecer tudo isso, pra só me preocupar com esta mesma lenga-lenga nas provas finais.

* A barata pára de correr dois segundos depois de começar a fugir do chinelo porque ela não se lembra mais do que está correndo.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

Dia da Bandeira (2)

Para não ser taxado de separatista, dedico outro post às bandeiras. Hoje, a bandeira canadense completa 42 anos. Antes de 1965, a bandeira oficial era a Union Jack, que ainda hoje é considerada como um símbolo oficial da adesão à Commonwealth.
Na semana passada a Maple Leaf, ou L'Unifolié, apareceu em uma aula de marketing, pois alguém citou que o Québec é um dos poucos lugares em que se bebe mais Pepsi do que Coca-Cola. A razão seria o vermelho da bandeira (e da Coca) que ainda reprime muitos dos québécoises, que teriam sido tratados como cidadãos de segunda classe por muitos anos, e que simpatizam mais pelo azul de Québec (e da Pepsi). Não pesquisei os números, mas ouvi que esse fenômeno também é observado em outros populações que são oprimidas pela bandeira vermelha de seus países, como a Rússia e a China.
Possível? Eu acredito que sim. Mas num nível de consciência muito sutil, e desconhecido pela maioria das pessoas.

Kelloggs

Parecia piada. Havia tanta neve no nosso estacionamento pela manhã, e o vento estava tão forte, que as dunas iam caminhando enquanto eu, de língua de fora e pá na mão, cavava um caminho pelo qual o carro pudesse passar. Tudo isso, claro, às 4:30 da manhã, tentando chegar no trabalho. A pior parte, porém, não era a neve fofinha e bonitinha no pátio em que o carro fica. Mas a pilha de gelo, sujeira, sal e piche que os caminhões do serviço público tiram das ruas e amontoam nos lados, bloqueando carros que estão estacionados, criando uma barreira entre a calçada e a rua, e, pra meu desespero, impedindo a minha saída.
Mais tarde, recebi a sugestão de que estas pilhas devem ser encaradas como obstáculos menores, e devem ser simplesmente empurradas com o carro já em alguma velocidade. Desacostumado com isso tudo, quem é que tem coragem?

sábado, 10 de fevereiro de 2007

Fim da semana

E que semana! Acabaram todos os treinamentos, e comecei a trabalhar de verdade. O que significa acordar às quatro da manhã para estar pontualmente às cinco sentado na frente do meu computador. Eu sou uma pessoa matinal, não tenho grandes problemas em acordar cedo. O frio desmotiva, mas o que realmente dificulta é morar em um ambiente com pessoas noturnas. Eu nem me incomodo tanto de dormir com algum barulho à volta, pessoas passando, conversando, portas fechando, telefone, televisão, música. Mas a vida é tão curta, e parece tanto tempo perdido estar deitado me lamuriando por ter que acordar cedo enquanto todos estão aproveitando a noite...

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Direção avaliada

Eu sempre me considerei um bom motorista, mas de livrinho na mão, lendo e relendo a importância de não dirigir após beber, o significado das placas, as atitudes preventivas no trânsito, as funções dos pedais, os métodos para uma condução prudente, e todo o óbvio de sempre, eu me sentia o mais inseguro de todos enquanto esperava pela prova prática de direção na sala infestada pela molecada roendo as unhas pendurada nos pais.
Assim que saí do estacionamento acompanhado pela instrutora, ao mudar de faixa ela já me solta: "Você acabou de cortar um carro". Dois minutos depois: "É a segunda vez que você corta um carro, e isso não é bom". Ao chegar no estacionamento na volta, quase passei por cima de um casal de velhinhos e a mulher do meu lado me grita impaciente: "O que você pensa que está fazendo, eu acho que nós podemos esperar eles passarem!". Estacionei, e eu tinha certeza de que respeitei todas as placas e limites, que não invadi a pista para ciclistas, que me mantive na faixa certa em todas as curvas, que dei a preferência para os ônibus saindo dos pontos, que fiquei atento aos pontos-cegos, que permaneci a uma distância segura tanto nos semáforos quanto dos outros carros no trânsito. Mas só conseguia pensar nos malditos carros que eu supostamente havia cortado, e naqueles velhinhos desorientados e com pouco apreço à vida no estacionamento.
Mas o suspense durou pouco. "Você é um motorista seguro", ela concluiu, para finalmente me deixar soltar a respiração que eu sentia estar segurando pelos 30 minutos anteriores. Preenchi a papelada e ganhei um papel de pão que me permite dirigir pelos próximos dias enquanto a minha habilitação canadense não aparece na caixa do correio.

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Dia da Marmota

Hoje é Groundhog Day, o meio do caminho entre o solstício de inverno e o equinócio da primavera. Segundo a tradição, se a marmota sair da sua toca e não conseguir ver a sua sombra, pelo dia estar nublado, o inverno vai terminar em breve. Se o dia estiver ensolarado e a marmota vir a sua sombra e voltar assustada para a sua soneca, o inverno vai durar mais 6 semanas.
Aqui em Montréal este inverno começou um pouco mais devagar. Mas por estes dias ele tem mostrado a sua cara, sim senhor, mesmo que não com a intensidade que eu esperaria. O dia está nublado e a marmota não viu a sua sombra hoje, mas ao contrário dela, eu não estou nem um pouco interessado na minha sombra e estou com muita vontade de voltar assustado para a minha cama. Talvez em alguns anos estejamos vivendo em um grande verão o ano inteiro, mesmo aqui no Canadá.