domingo, 30 de dezembro de 2007

Saudades

Estou surpreso com o tanto de bobagenzinha que esta viagem ao Brasil está me rendendo. Acho que eu realmente estava com saudades, ou de saco muito cheio de Montréal, porque aqui tá tendo muita coisa boa que eu nem sabia que me fazia falta, algumas até bestas, inclusive. Tipo:
  • calor: eu que amaldiçoava este país, que parece uma extensão do inferno, estou sofrendo mas sorrindo com esse bafo todo aqui.
  • comida: acho que não dá pra fazer lista, do arroz com feijão às sobremesas que a gente só come no Natal. Como diria meu pai, estou fazendo uma refeição só por dia, eu começo a comer na hora que acordo e só paro quando vou dormir.
  • televisão: musiquinha do Jornal Nacional, assistir Fantástico e ficar com um friozinho na barriga porque no dia seguinte tem aula, ver filme nacional, até com o show do Roberto Carlos eu fiquei grudado na TV.
  • folga: lavar roupa, fazer comida, limpar a casa, isso tudo é passado distante quando há quem nos sirva e mime por todos os lados o tempo todo. A gente acostuma rapidinho com a moleza, e só quando acaba é que a gente percebe como ela nos é rara.
  • língua + sociabilidade: não tem uma caixa de supermercado por quem eu passei com quem eu não tenha conversado, todo socialmente. Isso, aliás, é um dos pontos que mais me pega, eu sinto muito a falta de me expressar bem, de conseguir entender bem o povo (e não só o que me dizem), de sacar e utilizar as sutilezas na comunicação.
  • e minha família, e meus amigos, obviamente
Neste momento tenso é importante relembrar também das coisas que me levaram pra tão longe, porque a dúvida invariavelmente aparece para me poluir as certezas.

sábado, 29 de dezembro de 2007

Memória

Eu acho que o verão aqui no interior do estado de São Paulo tem uma grande semelhança com o inverno no Québec: a gente esquece depois que passa, e volta a se assustar no ano seguinte quando tudo recomeça. Em Montréal eu não consigo não me impressionar com o espanto e comoção causados por cada tempestade neve: será que o pessoal esquece que o Canadá ainda não virou um país tropical, e acha que não vai nevar?
Descendo pro Brasil, aqui na casa dos meus pais, por exemplo, tomar um banho frio nesta época do ano não é uma opção, a água sai quente de qualquer torneira ou chuveiro, independente da hora do dia. À noite, dormir só de cueca com janela aberta e ventilador ligado no máximo não basta, aqui houve noite em que eu tive que deitar para dormir em cima de uma toalha molhada, senão eu não conseguia pegar no sono. E todo mundo acha que é o apocalipse.
Será que o mundo está realmente ficando mais quente ou a gente é que está ficando cada vez mais esquecido?

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Adeus ano velho

Acabou.

Terminei a faculdade por esta sessão, entrei de férias no trabalho, e estou indo passar Natal e Ano-Novo no Brasil. Vou hoje, e volto em duas semanas.
Obrigado pela audiência em 2007, e ano que vem ainda estaremos aí, compartilhando os perrengues da vida, e fazendo limonada com os limões que o destino nos manda.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Transporte

Depois da tempestade de neve de domingo, a situação no trânsito de Montréal ainda está incontrolável. Hoje de manhã fiquei esperando um tempão nos 15º negativos, e todos os ônibus que passavam estavam 'hors service'. Finalmente quando passou um ônibus funcional, ele estava tão cheio que não cabia um peido lá dentro. Desisti e andei até o metrô.
Com minha memória fraca, cai no mesmo erro de pegar um ônibus pra voltar embora no fim da tarde. Nem fui na academia, pois queria chegar cedo em casa, e nem lembrei da bagunça nas ruas porque o ônibus passou super rápido. Escutando música e jogando meu novo Nintendo DS, demorei um pouco para perceber que depois de um tempinho no ônibus, caímos num super-mega-hiper-power-fucking engarrafamento. Fizemos em 2 horas e meia o percurso de 30 minutos.
Aparentemente, a cidade não tem nenhum método para tirar a neve das ruas: enquanto a ruazinha aqui do lado que liga nada a lugar nenhum já estava limpa, a avenidona que liga o centro às bandas de casa estava com uma faixa de cada lado bloqueada por causa da neve. Até as ambulâncias por que passamos estavam presas nos cruzamentos, com suas luzes piscando inutilmente. E nada, nem ninguém, nem algum esforço por parte da administração da cidade em tentar gerenciar o inferno todo. Haja paciência!
E terminando de vez o assunto da neve, dois links muito legais com fotos da cidade em 360 graus: foto 1 e foto 2 podem ser vistas de todos ângulos arrastando o ponteiro do mouse sobre elas.

domingo, 16 de dezembro de 2007

Compras

A última atividade do final de semana antes de ir pra casa e esperar a tempestade de neve eram as compras natalinas: eu precisava pensar nas lembrancinhas pelo menos pro pessoal daqui de casa. Foi então que tive a péssima idéia de passar no Walmart, que, por uma maldição de algum inimigo, estava no meu caminho. Pra se ter uma idéia, na hora que eu cheguei não tinha mais carrinho nem cestinha disponível: eu, tonto, devia ter entendido essa dica e imaginado o nível de insanidade em que aquilo se encontrava, mas ainda estava otimista.
Eu sempre me impressiono mas depois esqueço como aquele lugar é inferno: um bilhão de pessoas, todo mundo passando por cima de todo mundo, batendo, escoriando, esbarrando, chutando qualquer um que se portasse entre o carrinho de compras e o produto anunciado como mais barato que toda a concorrência. Eu estava me sentindo na pegadinha do Faustão, havia engarrafamentos em todos os corredores, não era possível voltar atrás e as filas para os caixas eram quilométricas. Tudo tem seu preço, aparentemente. E agora estou pensando em tatuar no meu pulso um recadinho para eu evitar aquele lugar, principalmente em épocas de alto consumo.

Chicano

Não podia passar deste final de semana, já fazia tempo que eu estava adiando pra ir renovar o meu cartão do seguro de saúde. O formulário já estava preenchido e assinado faz tempo: 3 xis-zinhos preenchidos indicando que o meu nome estava correto, que o meu endereço estava correto, e que eu não havia passado mais de seis meses fora do Québec no último ano, e outros 2 quadradinhos em branco sem xis-zinhos indicando que eu não havia morrido, e que não havia me mudado de província.
Vasculhei a gaveta de tranqueiras até que achei uma foto no tamanho certo (35x45mm), e fiquei todo feliz que era uma boa até, fundo branco, eu de gravata, topetinho, não pálido demais, nenhuma espinha, sério mas não assustado. Mas alegria de pobre não dura tanto, a alta tecnologia do bendito escritório em que escolhi para fazer a renovação não permitia mais fotos impressas: como agora tudo era feito no computador, eu teria que tirar uma digital lá na hora.
E eu, antes super-orgulhoso da imagem que me representaria pelos próximos cinco anos no meu cartão, tive que me resignar a ser retratado fielmente no meu melhor estilo gripado-em-fim-de-semana: pêlos aleatórios na cara, que alguns chamam de barba e que estava sem ser feita havia 10 dias, bigodinho de boliviano, o cabelo todo bagunçado por causa da toca, olheiras, e o nariz vermelho (à la Rudolph) e escorrendo por causa do frio. Uma visão dos céus, praticamente.

sábado, 15 de dezembro de 2007

Sábado

Hoje acordei cedo, como não fazia há muitos sábados, e analisando a minha longa lista de afazeres, tive um curto minuto de felicidade ao abrir as persianas e ver o sol brilhando tão forte. A televisão me indicou momentos depois que a temperatura externa estava na casa dos -20ºC, e que o sol da manhã sumiria durante o dia para dar lugar à segunda grande tempestade de neve deste inverno: 20 a 40 centímetros são esperados para amanhã. Ou seja, tive que cortar as atividades externas planejadas para o fim de semana, e reduzi-las para o mínimo necessário, para evitar colocar o nariz pra fora num gelo destes de hoje, e nem pensar em sair da cama amanhã enquanto o mundo estiver se acabando em neve lá fora.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Curtas

Assuntos locais para se conversar bebendo uma cerveja no bar da esquina:

  • Não bota mais fé na religião em que foi batizado, literalmente? O comendiante québécois André Montmorency, que afirma ter sido vítima de abuso sexual de um padre enquanto criança, começou uma campanha para que as pessoas decidam pela apostasia. Em um mundo high-tech, a deserção se tornou muito fácil, com a disponibilidade online do formulário a ser preenchido. A Internet é realmente a melhor invenção depois do pão-fatiado, a gente pode mandar de carta para o Papai Noel até um recadinho para Deus.
  • O ex-primeiro-ministro canadense Joe Clark levou um soco de um transeunte que o reconheceu na rua, e que não resultou em mais do que um nariz sangrante, mas atiçou a minha imaginação: como é que isso não virou moda no Brasil ainda? Será que a malandragem política brasileira anda mais bem protegida? Ou então que a nossa memória coletiva é fraca demais? Civilizados demais para tais demonstrações de fúria, talvez? Eu, particularmente, precisaria de mais do que os dedos das mãos e dos pés para contar o número de gente em que eu adoraria dar um porrada, mas graças ao Bom Pai e às normas e regras sociais que me foram transmitidas de modo a inchar meu super-ego, não saio por aí interpelando esse povo que merece uma surra, mas será que dá pra contar com personalidades tão serenas quanto a minha com tanto louco solto por aí?

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Aniversário

O email do Skype dizendo que minha assinatura anual ia vencer. A carta da operadora de celular agradecendo por meu tempo como cliente. O vencimento do meu cartão do seguro saúde. Muita coisa me alertou com alguma antecedência a breve expiração do meu primeiro ano em Montréal, que se dá hoje. Eu não sou de comemorar datas, prefiro usá-las para comemorar coisas da vida. Então mais do que o meu aniversário, mais do que Dia de Ação de Graças, e provavelmente mais do que o Natal e Ano Novo, hoje eu tenho razões para celebrar pois olho pra trás e vejo que neste tempo aqui um montão de coisa bacana aconteceu. Apesar da vida estar se tornando rotineira, até isso é legal, pois me dá a impressão de que a vinda se encaixou na vida e que esta última está se ajeitando. Conheci um monte de gente interessante e outro bando que não presta (os que não prestam acabam acrescentando bastante também, diga-se de passagem), consegui um emprego com boas perspectivas, terminei metade dos meus cursos da pós na faculdade, estou juntando dinheiro para importantes planos futuros (mais detalhes em breve), descobri que gosto muito de Montréal e do estilo de vida aqui, não morri no inverno e quase me matei no verão, o francês está entrando na minha cabeça lentamente mas certamente, e muito mais: motivo pra comemorar realmente não falta. Mas como algumas coisas na vida (in?)felizmente não mudam, me bate uma preguiça mental e o sono urge continuamente, então a minha comemoração se dá comigo sozinho e quietinho, debaixo das cobertas.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Presente

Qualquer que seja a direção para onde se olha em Montréal, o Natal se esfrega em nossas caras, a cidade inteira parece um cartão, como nessa foto acima, com a árvore gigante que está do lado do trabalho desde a última semana de Outubro!! Pra mim ainda não caiu muito bem a ficha, acho que minha lerdeza misturada com muito trabalho e provas na faculdade me retardaram a absorção do espírito das festas, mas as coisas estão mudando. Nesta semana, montamos a árvore em casa, exatamente a mesma do ano passado, cuja foto também foi publicada neste espaço (como a árvore é exatamente a mesma, achei melhor não repetir a informação). E o Alexandre demonstrou um interesse pouco usual no meu videogame: eu jogando deitado na cama, ele entra no meu quarto, faz um comentário aleatório sobre o frio, e de pé do meu lado, direciona o olhar para o console, enruga o nariz e lê em voz alta "X-BOX 360", como se a informação realmente fosse grande novidade pra ele. Outro comentário aleatório aqui e ali, e antes de sair correndo com a namorada, me pergunta de que tipo de jogo eu gosto. A sutileza nunca foi uma de suas melhores características, então acho que já sei o que me vai me esperar debaixo da árvore.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Caos

O caos já estava anunciado para esta manhã havia alguns dias, entre 30 e 35 centímetros de neve nos aguardariam no caminho pro trabalho, e com ela a garantia de dor de cabeça para muita gente. Nada fora do normal, já é tempo de tempestade, mas o que me fez levantar as sobrancelhas foi a notícia no telejornal matinal para o qual eu acordo diariamente que muitas escolas estariam fechadas.
Lembrei imediatamente da minha primeira estadia no Canadá, há mais de década, no norte da Colúmbia Britânica, em que as escolas não fechavam por conta da neve, mas sim por conta da temperatura: se às 7 da matina o mercúrio indicasse -35ºC ou menos, não haveria aulas. Lembro que eu acordava de manhã e rezava para que alguém batesse na minha porta para dar a boa notícia do dia de folga. Mas às vezes a reza não era suficiente, ou o Santo não fazia bem o cálculo da conversão da temperatura, e nos mandava -34ºC; aí, podia ter choro ou vela ou até congelamento da ponta dos dedos, era a longa caminhada branca a passos cautelosos até o ponto do ônibus que parecia nunca chegar.
E ainda na cama, vagarosamente, com o olho direito aberto e o esquerdo ainda dormindo, tentei entender a lógica de se fechar as escolas com o tempo ruim. Pensei que, como se diz na minha terra, seria uma judiação deixar as crianças andarem pra escola num tempo destes. Mas é só neve, e não estava tão frio, e é o mau humor da vida adulta que não nos deixa apreciar o espetáculo, a molecada faz a festa na rua num tempo destes. Talvez o ônibus que leva as crianças tenha dificuldades em atravessar a neve, calculei em seguida, mas é justamente o contrário: o transporte público continua numa boa, pontual como sempre, os motoristas pisando fundo como se nada houvesse de diferente. Perigoso e complicado, isso sim, são os pais tirarem os carros das garagens e se aventurarem para levar os filhos à aula, mas eles, pais, não teriam que ir trabalhar de qualquer maneira? E pior, como se faz para ir trabalhar com filho pequeno que não vai pra escola? Se é pra fechar escola, que se decrete ponto facultativo então, oras.
O segundo toque do despertador-celular me tira do transe, e amaldiçoando as circunstâncias que não me permitem tirar o dia pra descansar, fui marchando para o trabalho, tudo igual sempre, e lá vejo que um bando de gente não foi trabalhar. Muito provavelmente os pais cujos filhos foram presenteados com o dia em casa, e que herdaram o mesmo direito. Em tempos de baixa natalidade, ninguém nem imagina levantar a palavra contra pessoa qualquer com filho pequeno. Há males (leia-se: a tempestade, não os filhos) que vêm para bens.
Abaixo, a clássica foto do carro enterrado, com a cereja sendo o recado para o coitado do dono de algum engraçadinho que passou por ali antes de mim: tenha um bom dia!

sábado, 1 de dezembro de 2007

Dia mundial da luta contra a AIDS

Statistics happen to numbers. HIV happens to people.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Avião

A imprensa local está em polvorosa com um dos vôos inaugurais do A380 da Airbus, que saiu de Paris e pousou em Montréal hoje no almoço, como parte do seu tour du monde promocional. Em todos os telejornais hoje à noite, entrevistas com os fanáticos por aviões que se amontoaram para ver o gigante pousar, e repórteres garantindo cada um alguma exclusividade na cobertura do evento e do vôo.
Eu, na verdade, como com tanta coisa nessa minha vida, não poderia me importar menos com a fanfarra toda, e fico até mais tendendo para o lado crítico da coisa, que destaca o impacto ambiental de um trombolho destes e os gastos com que o aeroporto local teve que arcar poder fazer caber a aeronave num show pra inglês ver. E como pouquíssimas companhias áereas demonstraram interesse no avião, nenhuma delas com o Canadá em mente, a gente não vai ver a novidade por aqui por um bom tempo. Ainda mais em tempos incertos sobre o futuro da aviação, em que a pergunta voando no ar é se o que vai dar certo são aviões grandes como este da Airbus, carregando um mundo de gente por grandes distâncias, ou o 787 da Boeing, menor, mais ágil, mais fácil de acomodar.
Mas estou num momento aeronáutico e tenso da minha vida, tentando conseguir um espacinho qualquer na classe inferior no primeiro teco-teco que passar por Montréal e me largar em São Paulo. Já falei com agência de viagem no Brasil, outra aqui perto do trabalho, até favor de amigo do amigo eu já pedi, mas tá complicado de passar as festas no Brasil. Vou ter 10 dias de férias entre Natal e Ano-Novo, e não precisa ser vidente para imaginar que as minhas datas coincidem com as férias de metade do globo, aparentemente. Ou seja, minha brilhante idéia de dar um banana pra esse frio todo e ir passar o fim de ano com a família não foi tão criativa assim.
E nessa já perdi horas olhando o mapa e tentando descobrir alguma rota ainda não descoberta pelos turistas: comecei pelos vôos diretos saindo de Toronto, e fui pesquisando por Nova Iorque, Washington, Atlanta, Miami, até pela Cidade do México, e nada. E como também era esperado, nestes nossos tempos capitalistas em que embora às vezes muito caro, tudo tem um preço, eu vou ter que desembolsar alto pela minha falta de planejamento antecipado, e saudades do meu povo.

sábado, 10 de novembro de 2007

Novembro

It's hard to hold a candle in the cold november rain...
(November Rain - Guns n' Roses)
E 27 velas então? Mais ainda, e na neve? Difícil demais da conta, sô...

domingo, 4 de novembro de 2007

Papoula

IN FLANDERS FIELDS

In Flanders fields the poppies blow
Between the crosses, row on row,
That mark our place; and in the sky
The larks, still bravely singing, fly
Scarce heard amid the guns below.

We are the Dead. Short days ago
We lived, felt dawn, saw sunset glow,
Loved and were loved, and now we lie
In Flanders fields.

Take up our quarrel with the foe:
To you from failing hands we throw
The torch; be yours to hold it high.
If ye break faith with us who die
We shall not sleep, though poppies grow
In Flanders fields.
Em Novembro, na celebração do Remembrance que culmina na 11ª hora do 11º dia do 11º mês do ano, papoulas aparecem nas lapelas e golas por todos os lados como um símbolo internacional de reminiscência coletiva para homenagear e nunca esquecer os soldados mortos em operações militares.

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Bruxas (2)

Está rolando no Facebook um convite para uma festa de Dia das Bruxas dentro do metrô. O negócio funciona assim: os convidados, todos fantasiados, devem estar na estação Côte Vertu, ponto inicial da linha laranja, às 9 da noite, onde vão entrar no último vagão, e ir fazendo algazarra por todo o trajeto, que desce até o centro, volta a subir pelo outro lada da montanha, e termina em Laval 48 minutos depois. Alguém é encarregado de trazer um iPod e auto-falantes, e todo mundo se compromete a não abusar para que a polícia não estrague a farra. É claro que a organização do metrô não tem nem idéia do evento, e nem o patrocina, mas desde que as pessoas estejam se comportando civilizadamente, a pequena perturbação da ordem pública pode ser alvo de vista grossa, como aconteceu em eventos parecidos no passado.
Ainda no assunto, hoje o Halloween também foi tema de comoção no trabalho: o RH organizou um concurso de fantasias, e incentivou todos a irem trabalhar a caráter. Eu, cagão que sou, não consegui superar o medo de chegar no trabalho e ser o único fantasiado, então eu ignorei tudo isso. Mas é claro que muita gente teve mais coragem e empenho que eu, e foi um dia engraçadíssimo, com toda espécie de criatura vagando pelo escritório. Abaixo, as fotos dos premiados com vale-presentes da Futureshop:

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

ONU

Semana passada, o jornal La Presse anunciou que o governo federal está cortejando a ONU a trazer seu quartel-general de Nova Iorque para Montréal. Segundo o artigo, a transferência da sede para cá seria mais barata do que as renovações necessárias nas instalações atuais em Manhatan.
Apesar de pouca gente acreditar que essa história vai pra frente, foi feito um grande planejamento do projeto, que teria como localização a região do Velho Porto de Montréal. O fluxo de negócios e dinheiro que seria direcionado para a cidade tem deixado muita gente esfregando as mãos em vista dos futuros lucros, mas os 20 mil empregos diretos e 60 mil indiretos seriam muito úteis para toda a região.
Eu, particularmente, acho que Nova Iorque e os EUA têm mais poder e interesse para brigar para que tudo continue como está, mas ainda assim seria muito legal ter a ONU aqui no quintal de casa. Não custa sonhar, né?
P.S.: os atentos vão perceber que a escultura presente no projeto é exatamente a mesma que hoje existe no Parc Jean Drapeau, como tema da Expo 67, e que seria transferida para a região do Velho Porto.

domingo, 21 de outubro de 2007

Verão indígena

Diz a lenda local que no começo do outono, depois de dias escuros a baixas temperaturas, com os casacos já retirados do fundo do guarda-roupa, quando as pessoas já perderam a esperança e já começaram a estocar comida para o inverno, um súbito e intrigante sobressalto estival se faz presente quando ninguém mais espera, retirando suspiros de alívio dos friorentos, como se a natureza nos quisesse presentear com uma última injeção de energia antes do longo inverno.
E o povo aproveita, como se ainda fosse verão, tempo calmo, vento leve, ar seco, e faz planos para o final de semana, e vai trabalhar de camiseta, e esquece as últimas semanas geladas, como se tivessem sido elas os pontos fora da curva, os pássaros se alvoroçam, os poetas cantam, as ruas e bares enchem.
Este curto período é conhecido como verão índigena (été indien, ou été de la Saint Martin na Europa), e suas explicações meteorológicas me importam menos do que a história popular, assim como as definições muito restritas. Acredita-se que a expressão tenha nascido do fato que os índios da América do Norte sabiam aproveitar este período, esperando até o último minuto, para fazer suas reservas para o inverno.
Parte do que se conta é que muitas pessoas só se dão conta do fenômeno depois que ele acaba, marcado pela primeira geada do outono, ou mais gravemente, a primeira neve. Muito parecido com a nossa vida, inclusive.
Abaixo, algumas fotos despretensiosas do também despretensioso Parque Mahatma Gandhi, bem em frente de casa, neste final de semana de tempo excepcionalmente bom.





segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Vício

Ne cours jamais après un amour ou un autobus: il y en aura toujours un autre à prendre....
(Anônimo)
Trabalhar na indústria de jogos para celulares tem feito minha cabeça e me ocupado muito bem o tempo. Nas horas vagas, que o transporte público toma todas para si, fico alheio ao mundo ao meu redor, MP3 no último no ouvido, e olhos concentrados no meu celular, jogando Tetris. O vício tem me garantido boas pontuações no jogo, a impressão de que os caminhos são mais curtos, e eventualmente um pouco de torcicolo ou dor no dedão direito.
Mas como tudo que é bom engorda ou faz mal, neste final de semana o meu passatempo quase que me coloca numa fria. Voltando da noite na cidade madrugada adentro, alguns resquícios de álcool ainda no sangue, e todo o sono acumulado da longa semana de trabalho + faculdade + academia + francês + socializações, recorro ao Tetris para me manter acordado dentro dos dois ônibus que tenho que pegar para chegar em casa. Mas a concentração no jogo foi tanta que eu passei o ponto em que deveria descer, o que me fez perder o segundo ônibus. Aqui o transporte é eficiente, mas à noite a gente não tem tanta margem pra bobeira. Mas meu anjo da guarda me deu uma ajuda, e o ônibus que eu perdi era o penúltimo da noite, depois de uma meia hora de espera (jogando Tetris), consegui chegar em casa no ônibus seguinte.
Depois dessa passei a jogar Sudoku, que é tão viciante, tão poderoso em me manter acordado, tão exigente nos neurônios quanto Tetris, mas menos intensivo na concentração, e posso dar uma olhadinha pela janela com mais freqüência para saber onde estou.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Bruxas

Ontem nos reunimos eu e meus amigos com quem divido o apartamento para uma tarefa muito importante: entalhar a abóbora (ou moranga) para o tradicional Jack-O'-Lantern, clássica figura neste mês do Dia das Bruxas.
Depois de todo um trabalho em conjunto para o design do rosto que a nossa abóbora ia ganhar, partimos para a faca, mãos lambuzadas para tirar as sementes e as melecas internas, e finalmente dar ao fruto uma expressão bem expressiva.
Com uma vela dentro, ficou perfeito. E colocamos na porta do prédio, onde ficaria brilhando e assustando os maus espíritos para que não entrassem em casa, até o dia 31. Mas não durou tanto: algum %$&@! da puta deve ter gostado tanto do nosso design, e roubou a nossa abóbora talhada! Não deu tempo nem de tirar foto!
As sementes foram colocadas com sal para torrar no forno, e duraram mais um ou dois dias, mais do que o projeto todo que deveria servir para fazer esse bairro de gente estranha entrar no clima da festa tão tradicionalmente norte-americana.

sábado, 29 de setembro de 2007

Rico

Est-ce mal vu d'être riche au Québec?
Esta pergunta foi o tema de um programa de hoje na Radio-Canada, e já foi assunto de muitas conversas minhas com amigos aqui: será que é realmente mal-visto ser rico no Québec?
Meu primeiro argumento é que é muito difícil ser rico aqui. No meu caso, por exemplo, meu salário já me coloca na média dos rendimentos, e nesta faixa, minha taxa nominal de imposto federal mais provincial é de 44%, ou seja, para cada dólar a mais que eu ganho, eu nem vejo a cor de 44 centavos.
Com o estado se esforçando tanto para redistribuir a riqueza, é natural que haja poucos ricos. Mas eu não sei se estes poucos se escondem ou se eles são realmente muito poucos, pois pelo menos aqui em Montréal não é comum de se encontrar riqueza ostensiva.
No programa, com alguns auto-entitulados experts, e participação do público, foi concluído que o povo daqui não vê a riqueza com maus olhos, mas que a sua história e cultura privilegiam riquezas menos materiais. A primeira parte da conclusão eu não sei se é verdade, mas a segunda é uma das razões pelas quais eu me sinto muito bem aqui.
Aqui não é proibido pisar na grama, pois na grama se senta nos dias de sol. As casas não precisam ser grandes, pois não faz sentido trabalhar o tempo todo para ter uma casa enorme onde não se passa tempo algum. Um dia no parque é mais valioso do que um dia no shopping. E por aí vai...

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Picnic

No verão, tem sempre tanto acontecendo em Montréal, que é difícil manter o passo com todas as atividades espalhadas pela cidade. Dependendo do círculo de pessoas com quem se convive, a gente passa batido por tanta coisa por simples ignorância. E foi assim com o Piknic Electronik, um festival de música eletrônica que rola nos finais de semana do verão inteiro, no Parque Jean Drapeau, na Ilha Santa Helena. Já tinha até ouvido falar do festival, meio que en passant, em conversas paralelas, mas foi só ontem que resolvi passar por lá com um amigo.
O público é extremamente heterogêneo, provavelmente muita gente lá ainda estava dopada das drogas da noite anterior, talvez nem voltaram para casa e emendaram uma balada na outra. Mas muitos queriam só aproveitar o resto do final de semana, dançar, ver gente, e curtir o ambiente.
E foi um ótimo programa de domingo à tarde, dançando ao som de um techno muito alto, às margens do Rio São Lourenço, e no horizonte os prédios do centro da cidade, e o sol se escondendo atrás deles.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Ponto de vista

Uma árvore mudando de cor e perdendo suas folhas precocemente, ainda no final do verão. Daqui a pouco é outono!

domingo, 16 de setembro de 2007

Vida boa

Morar em um lugar onde todo mundo é classe média acaba por render alguns prazeres na vida. Neste final de semana fui para Québec City, fazer com amigos o programinha turístico básico. Andamos o dia todo, num friozinho agradável mas com bastante sol e céu azul, e ao anoitecer, resolvemos nos dar de presente um jantar chique. A escolha era óbvia: o restaurante de um hotel 5 estrelas, no topo de uma torre de 170 metros, e que gira em seu eixo, de onde poderíamos ver o pôr-do-sol e nos restaurar da andança toda.
Devo admitir que a rotação não me agradou tanto quanto imaginava, pois embora a vista fosse muito boa, a sensação nauseante do movimento começou a encher minha paciência em pouco tempo. Resolvi então olhar menos para a paisagem e focar mais na comida, e foi aí que a tudo se complicou. Minha mentalidade de pobre e espírito de gordo falaram mais alto do que o meu falso requinte, e se era para gastar 50 dólares no buffet, que então valesse a pena. A comida não era nenhum manjar dos deuses, mas devo admitir que foi provavelmente a minha melhor refeição desde que cheguei no Québec. E eu comi demais da conta. E a sensação de preenchimento durou tempo demais, e me rendeu pesadelos por toda aquela noite. Mas valeu a pena.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Aniversário

Hoje faz exatamente um ano que eu tomei a decisão final de largar o meu emprego e a minha vida em São Paulo e vir para o Canadá. Até então, a vinda era um sonho antigo que ganhava força ou era colocado na gaveta dependendo das circunstâncias ao meu redor. Mas nesta data, depois de fazer o exame médico exigido pelo consulado, e indo atrasadíssimo para o trabalho de ônibus e metrô, este projeto de repente me pareceu tão real, tão paupável, e tão exequível, que eu não conseguia entender como não tinha chegado a essa conclusão antes. E embora a decisão definitiva tenha sido um pouco tardia, ela me poupou do excesso de ansiedade durante o processo, pois naquele ponto não havia mais nada a dar de errado.
Nos exatos três meses que separaram aquela data da minha chegada, foi tudo simplesmente uma questão de colocar as coisas em seus devidos lugares, e acomodá-las para a minha a minha partida. É claro que a vida não deixou de correr, pessoas foram e vieram, eu recebi uma promoção no emprego, e de certos ângulos eu até via um futuro menos nublado em São Paulo.
Mas não havia mais volta, a decisão já estava tomada, e não executá-la até o fim seria colocar um ponto de interrogação insuportável em meus ombros. E hoje volto à conclusão de um ano atrás: não tinha como não vir. E ainda bem que assim o fiz.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Contravenção

Depois de um queijo-e-vinho tão longe que parecia que eu estava indo para o Brasil de metrô, emerjo do subsolo meio cambaleante e intoxicado de álcool e gordura, subo o zíper da jaqueta mecanicamente, cruzo os braços, encolho o pescoço, e já sem esperança de ainda dar tempo de pegar o último ônibus, vou dando passos largos e rápidos para tentar esquentar um pouco e fazer meus sentidos sairem do torpor do meio-sono em que se encontravam. Na escuridão das ruas, só eu me aventurava a tentar chegar em casa, e nem uma explosão de uma bomba de nêutrons culminaria em um ar tão desolador como o que eu presenciava.
No fundo do meu cérebro ouço alguém atrás de mim tentar chamar a minha atenção, e em meio segundo concluo que seria mais seguro pelo menos olhar para trás e fazer cara feia, para o inimigo no mínimo entender que eu não estava nem de brincadeira, nem de bom humor.
Enquanto minhas sobrancelhas relaxam e os músculos dos membros e tronco tensionam, descubro que a voz do meu interlocutor vem de dentro de uma viatura, do seu banco do passageiro mais especificamente, e eu parado, literalmente no meio da rua, decido voltar e fazer cara de manso, afinal, não se brinca com a lei. Nesta volta, primeiro penso o que eu poderia estar fazendo de errado, além de estar bêbado, e após ponderar que andar bêbado não é crime, relaxo um pouco mais e vou pensando comigo algumas frases prontas em francês para me safar rapidamente de qualquer pergunta aleatória que o policial pudesse me fazer.
Chego na calçada de onde parti, a viatura pára na minha frente como a impedir qualquer tentativa de volta pelo caminho de onde vim, os dois policiais saem de lá de dentro, mão na cintura para deixar claro que estavam armados, e um deles começa a me dar um sermão: eu estava cruzando a rua enquanto o sinal estava vermelho para mim.
Eu até estava entendendo boa parte do que ele estava me falando em francês, mas tudo me parecia tão surreal que eu comecei a duvidar do meu bom senso. Filtrando o que ele estava me dizendo e ignorando boa parte do que eu ouvia, voltei à realidade quando escutei uma frase que terminava com as palavras ’40 dólares’. Continuei com a minha cara de imigrante, e esperando que ele já pedisse meus documentos e me desse uma multa, eles entraram na viatura de novo, e recuaram, tornando meu caminho livre de novo. Como escapei dessa, engoli a minha vontade de mandar o tiozinho à merda, e agradeci com um pouco de sarcasmo, voltando a brincar com o perigo. O sinal estava vermelho de novo, então ficamos os três ali por mais alguns segundos tensos, os dois dentro do carro, e eu no frio lá fora, até o sinal abrir, quando todos cruzamos a rua bem dentro da lei, e seguimos cada qual o seu caminho.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Setembro

Summer has come and passed
The innocent can never last
Wake me up when September ends
(Green Day)
Nesta primeira semana de setembro, reflito na inflexão que essa época traz a minha rotina. O fim das férias vem juntamente com o fim do verão, não no calendário, mas na prática. A cidade e a vida voltam à morosidade invernal dos dias cada vez mais curtos, tudo e todos armazenando energia para o frio que chega a passos rápidos.
No trabalho, a situação também se re-estabelece, e a dança de cadeiras chega ao fim, tanta gente saindo de férias durante os últimos meses, pessoas indo embora, outros sendo contratados, tudo normal mais uma vez, escritório superpopulado, que o contrário da vida lá fora, fica cada vez mais movimentado.
Volta às aulas, outras aulas, outras matérias, mesmas encheções de saco. Volta ao curso de francês, falta de desculpas para faltar à academia.
E a preguiça, aquela, a eterna, pousa sobre os meus ombros, e me deixa lento, muito lento. Alguém me acorda no verão que vem, por favor?

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Estrelas Cadentes

Esta é uma música de um grupo québécois que está fazendo muito sucesso, chamado Les Cowboys Fringants. Eu fui no show deles em Repentigny, na Festa Nacional do Québec, e fiquei positivamente surpreso, até então eu não tinha cruzado com nada novo aqui que tivesse me impressionado tanto musicalmente. Nesta composição, que fala muito sobre o povo daqui, eu fiquei apaixonado pelo ritmo, pelo solo de acordeon, e, depois de um pouco de pesquisa, pela letra.

Des Étoiles Filantes
Letra e Música: Jean-François Pauzé
Interpretação: Les Cowboys Fringants

Si je m'arrête un instant
Se eu paro por um instante
Pour te parler de ma vie
Para te falar da minha vida
Juste comme ça tranquillement
Assim tranqüilamente
Dans un bar rue St-Denis
Num bar na rua St-Denis

J'te raconterai les souvenirs
Eu te contaria minhas lembranças
Bien gravé dans ma mémoire
Bem gravadas na minha memória
De cette époque où vieillir
Da época em que envelhecer
Était encore bien illusoire
Era ainda bem ilusório

Quand j’agaçais les p’tites filles
Quando eu brigava com as meninas
Pas loin des balançoires
Não longe dos balanços
Et que mon sac de billes
E que meu saco de bolinhas de gude
Devenait un vrai trésor
Se tornava um tesouro de verdade

Et ces hivers enneigés
E esses invernos cheios de neve
À construire des igloos
Construindo iglus
Et rentrer les pieds g’lés
Chegando em casa com os pés gelados
Juste à temps pour Passe-Partout
Bem na hora do Passe-Partout

Mais au bout du ch’min dis-moi c’qui va rester
Mas no final do caminho, me diga o que vai sobrar?
De la p’tite école et d’la cour de récré?
Da pequena escola e do parquinho?
Quand les avions en papier ne partent plus au vent
Quando os aviões de papel não partem mais ao vento
On se dit que l’bon temps passe finalement...
Diz-se que os bons tempos passam finalmente...

...comme une étoile filante
...como uma estrela cadente

Si je m’arrête un instant
Se eu paro um instante
Pour te parler de la vie
Para te falar da vida
Je constate que bien souvent
Eu constato que bem freqüentemente
On choisit pas, mais on subit
A gente não decide, mas se submete
Et que les rêves des ti-culs
E que os sonhos das crianças
S’évanouissent ou se refoulent
Desaparecem ou são reprimidos
Dans cette réalité crue
Nesta realidade crua
Qui nous embarque dans le moule
Que nos coloca no molde

La trentaine, la bedaine
Os trinta anos, a barriga
Les morveux, l’hypothèque
Os pivetes, a hipoteca
Les bonheurs et les peines
As felicidades e os sofrimentos
Les bons coups et les échecs
Os bons golpes e as derrotas

Travailler, faire d’son mieux
Trabalhar, fazer o seu melhor
En arracher, s’en sortir
Se desvencilhar, se livrar
Et espèrer être heureux un peu avant de mourir
E esperar ser feliz um pouco antes de morrer

Mais au bout du ch’min dis-moi c’qu’y va rester
Mas no final do caminho, me diga o que vai sobrar?
De notre p’tit passage dans ce monde effréné ?
De nossa pequena passagem neste mundo sem freios?
Après avoir existé pour gagner du temps
Depois de ter existido para ganhar tempo
On s’dira que l’on était finalement...
Vamos dizer que éramos finalmente...

...que des étoiles filantes
...somente estrelas cadentes

Si je m’arrête un instant
Se eu paro por um instante
Pour te parler de la vie
Para te falar da vida
Juste comme ça tranquillement
Assim tranquilamente
Pas loin du Carré St-Louis
Não longe do Carré St-Louis

C’est qu’avec toi je suis bien
É que com você eu fico bem
Et que j’ai pu’l’goût de m’en faire
E que eu não quero mais me preocupar
Parce que tsé voir trop loin
Porque, veja, olhar muito longe
C’pas mieux que r’garder en arrière
Não é melhor do que olhar para trás

Malgré les vieilles amertumes
Apesar dos velhos rancores
Et les amours qui passent
E dos amores que passam
Les chums qu’on perd dans’ brume
Dos amigos que perdemos na bruma
Et les idéaux qui se cassent
E dos ideis que se quebram

La vie s’accroche et renaît
A vida se segura e renasce
Comme les printemps reviennent
Como as primaveras voltam
Dans une bouffée d’air frais
Em um sopro de ar fresco
Qui apaise les cœurs en peine
Que acalma os corações em sofrimento

Ça fait que si à’ soir t’as envie de rester
Então se hoje à noite você tem vontade de ficar
Avec moi, la nuit est douce on peut marcher
Comigo, a noite é doce, nós podemos caminhar
Et même si on bien que tout dure rien qu’un temps
E mesmo que saibamos que tudo só dura um tempo
J’aimerais ça que tu sois pour un moment…
Eu gostaria que você fosse por um momento

...mon étoile filante
...minha estrela cadente

Mais au bout du ch’min dis-moi c’qui va rester…
Mas no fim do caminho, me diga o que vai sobrar
Mais au bout du ch’min dis-moi c’qui va rester…
Mas no fim do caminho, me diga o que vai sobrar

...que des étoiles filantes
...além das estrelas cadentes

terça-feira, 31 de julho de 2007

Presente

Presenteei o Rio São Lourenço com um objeto que me era muito caro: indo para o trabalho, alheio ao mundo por conta da minha música portátil ao máximo, saí do ônibus em frente à estação do metrô, e acabando de atravessar a rua sinto os fones nos meus ouvidos serem puxados para baixo enquanto meu MP3 se soltava do meu bolso para cair diretamente num bueiro. Não era nenhum iPod, mas me fazia companhia nos caminhos entre casa e trabalho, trabalho e faculdade, e faculdade e casa. Talvez uma bênção para os meus tímpanos, que eu não sou de abusar mas tampouco de poupar, talvez uma maldição de algum co-passageiro incomodado pela minha cantoria, ou o acaso brincando um pouquinho comigo. Em todo caso, passei a contornar os bueiros desde então.

domingo, 29 de julho de 2007

Benesses

Depois de uma semana no novo trabalho, acho que já posso fazer um balanço positivo da decisão de ter trocado de emprego. Minha função parece ser interessante, mas ainda assim um pouco bate-estaca: uma equipe desenvolve os jogos para celulares, e eu sou um dos responsáveis por fazê-los funcionar em diversos tipos de aparelho. Muita coisa nova que ainda tenho que aprender, e em um assunto interessante, então é satisfatória a sensação de desafios futuros.
O que mais me impressionou foi o ambiente de trabalho. No final do primeiro dia, em que fiquei às voltas com RH por conta da papelada inicial, perguntei ao meu chefe a que horas deveria chegar no dia seguinte, ao que ele me responde muito naturalmente: "Quando você acordar!". Horário flexível, todo mundo confortável de bermuda e chinelo, comida para o café da manhã e chá da tarde o tempo todo na cozinha. E as pessoas, todo mundo muito de boa, dispostos a ajudar. "Muito stress, precisa de um tempo de criativade?" - meu chefe me pergunta retoricamente - "Fique à vontade para sentar aqui na sala e jogar videogame um pouco". Nos dias de prova que estão chegando, vou poder sair mais cedo ou tirar o dia livre. E às sextas pela tarde, o que se passa? Cerveja pra todo mundo, é óbvio.
Outro fato muito positivo são os benefícios. Nada de muito absurdo, nada que as outras empresas sérias por aí não ofereçam também, mas como o meu último emprego não valorizava nada nem ninguém, pra mim ainda é um pouco de novidade esses pequenos incentivos. Desconto em academia, plano médico e odontológico a partir do primeiro dia, contribuição em plano de pensão, bônus anual, e o melhor até agora: incentivo para eu comprar um video-game (!!!!), e mega-desconto nos títulos da EA.
Acho que agora finalmente eu volto a melhor direcionar o meu futuro profissional.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Discurso

Hoje é o 40º aniversário do controverso discurso que o General Charles De Gaulle deu em Montréal, incentivando o movimento de soberania do Québec. Em viagem oficial ao Canadá para participar da Expo 67, o então presidente francês se pronunciou de improviso na sacada da prefeitura de Montréal, onde uma multidão aclamava por algumas de suas palavras, e foi presenteada com um discurso que culminou com as frases "Vive le Québec! Vive le Québec libre!".
Depois das eleições passadas, os separatistas andam um pouco menos animados, por causa do pouco apoio que suas antigas idéias receberam, mesmo que a Assembléia Nacional do Québec nunca tenha tido tantos deputados que apoiam a soberania como agora. O povo, no entanto, está muito cético de que muita coisa vá melhorar de verdade caso a emancipação política realmente ocorra, e o projeto, portanto, permanece dormente.

domingo, 22 de julho de 2007

Produção

Hoje marca o fim da semana mais improdutiva da minha vida desde que comecei a trabalhar aqui em Montréal. Deixei tudo empilhar, não estudei nada, saí nos finais de semana e algumas vezes durante a semana, cancelei minha aula de francês, fui assistir os fogos de artifício, assisti filmes, dormi tarde, acordei tarde e fiquei enrolando na cama, aproveitei a minha semana de férias entre um emprego e outro.
Mas agora tudo recomeça. Esta semana já tem projeto pra entregar, semana que vem começam as provas finais, para as quais ainda não estudei nada. Emprego novo começando amanhã, friozinho na barriga, mudança na rotina, muitas coisas prestes a acontecer. Hoje mesmo já estou perdendo um domingo de muito sol, e estou aqui, casa vazia, não aceitei convites para sair, para beber cerveja, para ir para a praia, já desencanei do cinema. Difícil essa vida.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Tragédia

Em tempos de tragédia, é bom não estar no Brasil, e não sofrer com a enchente de notícias e análises e opiniões e depoimentos e críticas e desculpas. Daqui do Canadá, o acidente em Congonhas ganhou alguns minutos na mídia, mas foi esquecido rapidamente.
O chato dessa história é tentar conversar com os gringos sobre o incidente, pois isso sempre vira assunto em rodas em que se conhece a minha nacionalidade. E haja fôlego:
  • Não, não há conhecidos ou parentes meus entre as vítimas. Somos 180 milhões de habitantes, e não um grande família. O que eu não conto é que, sim, eu tenho uma amiga aqui em Montréal que tem uma amiga no Brasil cujo noivo francês estava trabalhando no prédio que pegou fogo, e que, até este momento, ainda consta como desaparecido. Tento não compartilhar esse sentimento com as pessoas aqui, mas é impressionantemente perto.
  • É claro que é seguro viajar de avião no Brasil. Historicamente, as chances de morrer em um acidente de avião são menores do que de morrer atingido por um raio ou eletrocutado no chuveiro elétrico por ter esquecido de desligar a chave central antes de se meter a eletricista. Mesmo analisando os dados parcialmente e pensarmos em 350 mortes nos últimos 10 meses em que 47 milhões de pessoas voaram, a coisa não parece tão catastrófica assim. Mas dois acidentes assim em menos de um ano? Veja bem...
  • Perigoso mesmo é estar no Brasil, e não pousar no Brasil, alguém aí tem as estatísticas de homicídio em São Paulo ou no Rio? O avião é a parte segura da viagem, mesmo com toda essa crise aérea de que se tem falado tanto. O que me deixa apreensivo na minha próxima ida para o Brasil não é o aeroporto, mas sim a criminalidade fora dele. Mas este é outro ponto em que também tento não ser muito enfático com o povo daqui.
  • Sim, sim, faz tempo que se sabe dos problemas estruturais da pista de Congonhas. Até o presidente já havia posto gente pra trabalhar nisso, e acionado todas as forças para resolver a questão. E por quê diabos não foi resolvido e nada foi feito? Bom, 'nada' é uma palavra muito forte, e nada é tão simples assim.
  • Um depósito de combustível no final de uma pista de pouso? Bom, é natural que depósitos de combustível tenham que ser construídos perto do aeroporto, mas bem no final da pista? De uma pista curta? E escorregadia? E sobrecarregada?
  • O piloto, sabendo das condições agravadas pela chuva daquele dia, não deveria ter pousado um pouco mais no começo da pista?
E para cada ponto desses, tem sempre uma piadinha dos gringos, um sorriso malicioso que resume tudo: coisas de terceiro mundo, de país sub-desenvolvido, de povo ignorante. E é muito difícil de explicar que não é bem assim. E impossível de entender.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Ponto de vista

Arco-íris em um dia aleatório de um Julho chuvoso em Montréal.

sábado, 14 de julho de 2007

Homenagem

Pequena homenagem, no quadro da cozinha, aos 218 anos da Queda da Bastilha, simbolizando a admiração dos integrantes deste nosso porão à história francesa, ao povo francês em geral, e a alguns franceses, especificamente. Vive la Republique! Vive la France!

quarta-feira, 11 de julho de 2007

I quit! (2)

Fiquei impressionado de como o meu emprego atual aceitou mal o meu pedido de demissão. Um ambiente pouco cooperativo, que paga mal, com troca de empregados muito grande, horários terríveis, respeito nenhum pelo capital humano, e mais um monte de merda pela qual passam os pobres que tiveram a sorte de conseguir um emprego mas o azar de consegui-lo nesta companhia, imaginei que eles estariam um pouco mais acostumados a ter gente abandonando o barco.
Muito educamente, comuniquei ontem que começaria um novo emprego em duas semanas, e que portanto trabalharia só até o final desta semana, e que tiraria os meus dias acumulados no banco de horas por ter trabalhado nos últimos quatro feriados na semana que vem. Grande foi a minha surpresa quando a minha supervisora veio conversar comigo na minha mesa (primeira vez nos 6 meses que trabalhei lá) e dizer que eles não iriam me dar esses dias, pois já haviam caducado. E começou ali um leva-e-trás de recados, eu de um lado, e alto gerenciamento mais RH de outro, que culminou em um email meu em que eu anunciava conhecer os meus direitos, e me mostrava disposto a levar o assuntos a instâncias superiores de proteção aos trabalhadores caso eles realmente me privassem do dinheiro que me deviam.
Finalmente, acabaram por fazer muita cara feia, mas deram pra trás. Hoje foi meu último dia, vão me pagar os próximos quatro dias para eu ficar em casa, e vão terminar o meu contrato. E ainda se fizeram de ofendidos, com o argumento de que eu não estava respeitando o acordo tácito (não é uma regra!) de comunicar o abandono do emprego com 15 dias de antecedência. Eu estava tentando ser gentil, mas tive que mostrar os dentes, quando começaram a tentar me passar pra trás. E eu acredito que esse tipo de atitude deve render a eles alguns trocadinhos, dos quais duvido que realmente precisem. Pra mim, 400 dólares é muita coisa, mas eu brigaria até o final também por fazer valer o que é meu de direito.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Oferta

There’s only so much you can learn in one place.
The more that I wait, the more time that I waste.
Are you ready to jump?
Yes, I’m ready to jump!
Madonna
Depois de uma prova técnica, e duas entrevistas, recebi hoje a boa notícia: a companhia Electronic Arts me fez uma proposta de emprego para trabalhar portando jogos entre plataformas móveis, como celulares, iPods e PDAs. Salário melhor, bônus no final do ano, férias mais longas, horário flexível, ações da empresa, plano de saúde a partir do primeiro dia, enfim, um conjunto abrangente de benefícios, e a promessa e esperança de dar o primeiro passo em uma nova carreira. E a cereja por cima: carreira em jogos de computador, que acaba levando tantos gordinhos de óculos como eu a fazerem as engenharias e ciências de computação mundo afora.

sábado, 7 de julho de 2007

Lua

I see the moon
And the moon sees me
And the moon sees somebody I want to see
God bless the moon
And Gob bless me
And God bless somebody I want to see
(cantiga de ninar)
Essa é para os que estão longe, do outro lado do continente, do outro lado do oceano, a lua nos vê todos, e que Deus nos abençõe!

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Moicano

"Curto" - respondi quando a cabeleireira me perguntou como eu queria o corte. Mas essa raça sabe brincar com as nossas cabeças, literalmente ou não, e acabei por ser convencido de que um corte que deixasse o cabelo mais comprido em cima, num estilo meio moicano, ficaria muito bem em mim, por causa do formato do meu rosto, tipo de cabelo, e está na moda, e vai ficar ótimo, e isso, e aquilo.
Eu só queria o cabelo curto para uma entrevista, e para evitar a fadiga deixo sapatearem na minha cabeça. Raciocinei que como nunca havia visto a mulher na vida, ela não teria motivos para mentir pra mim, e que provavelmente gostaria de me ter como cliente no futuro próximo, e que talvez a sua experiência talvez lhe sirva de alguma coisa. Fui adiante com a brincadeira, mas mais calmo por ter sido assegurado que eu poderia a qualquer momento escolher voltar à minha caretice capilar cotidiana sempre que assim desejasse, simplesmente não pondo o cabelo pra cima.
No final das contas até que não ficou ruim, e estou até adotando o estilo. Mas um pouco atrasado, pelo jeito, pois agora parece que para todos os lados que olho tem meia dúzia de moicanos. Estou me sentindo o último deles, mas pelo menos parte do grupo.

domingo, 1 de julho de 2007

Mudança

Por motivos que eu ainda não consegui entender, 70% dos contratos de aluguel em Montréal terminam no mesmo dia: primeiro de Julho.
Este dia, coincidentemente, é também Canada Day, que aparentemente é muito pouco celebrado no Québec, pois o povo tem a desculpa de estar ocupado com a mudança.
Ou seja, é uma data muito boa para achar todo tipo de tranqueira na rua, no meio daquilo que os outros classificaram como lixo. Colchão, sofá, televisão, livros, discos, móveis, vidas e privacidades alheias vão se empilhando nas esquinas e nos cantos, esperando que alguém as recolha para uso próprio ou então o triste destino da próxima visita do caminhão de reciclagem.
Eu não tenho contrato com ninguém, somente acordos de cavalheiros, mas também acabei mudando neste dia, e agora estou em casa de novo. Ganhei uma cama usada e lençóis limpos, herdei móveis antigos e empoeirados, um porão úmido e com paredes manchadas, mas é a minha casa de novo, finalmente.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Jazz


Eu não estava muito animado, mas devido a uma delicada situação mental em que me encontro e que me impede de dizer não às pessoas, acabei por concordar, e dar a graça da minha presença no primeiro dia do Festival Internacional de Jazz de Montréal, com Carlinhos Brown no grande show de abertura. Um amigo me disse que no Brasil eu não iria nem carregado para um show desses, e é verdade, mas aqui é realmente mais difícil de falar não, por diversos fatores:
  • é de graça;
  • é no centro, fácil de chegar, fácil de voltar embora, de metrô, sem favor de ninguém;
  • é seguro;
  • é cedo, dá pra aproveitar sem ter uma síncope ao tentar acordar no dia seguinte;
  • é verão, e não por muito tempo.
Então acabei aparecendo por lá, meio de besta, coçando a barba do queixo, olhando para a multidão com o branco dos olhos e procurando o pessoal com quem havia ficado de encontrar. Carlinhos Brown não conseguiu embalar muito a platéia, não. Acostumado com o público tupiniquim, ele precisou rebolar muito, e o resultado foi pequeno. Num inglês porco e francês pior ainda, tentava embalar aquela montanha de gente pendurada em todos os cantos, mas o pessoal só ficava no passinho-pra-esquerda-passinho-pra-direita com as mãos nos bolsos.
Eu, assim como os brasileiros aos montes e facilmente reconhecíveis, aproveitei, e dancei, e cantei, e pulei, e não me arrependo. Afinal, é verão, mas, de novo, não por muito tempo.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Artifícios

Dá pra adivinhar quais são os países da competição pelo desenho?

artifício
do Lat. artificiu
s. m.,
meios com que se obtém um artefato;
emprego de meios ou processos engenhosos;
sagacidade;
perspicácia;
ardil;
habilidade;
trabalho pirotécnico.

Quarta e sábado é fogo! O Campeonato Internacional de Fogos de Artifício ocorre anualmente em Montréal, durante Julho. Este ano são oito países, mais a apresentação final para a conclusão do evento. Nas margens do Rio São Lourenço, na Ponte Jacques Cartier que fica fechada ao tráfego, no parque Jean-Drapeau, uma multidão se aglomera com os olhos voltados para a Île Ste-Hélène, ou mais precisamente, o parque de diversões La Ronde, que sedia a competição e de onde surge o espetáculo piro-musical que deixa todo mundo quase sem respirar por meia hora, de tanta luz, tanto barulho, tanta fumaça.
Na quarta-feira passada foi a apresentação da Inglaterra, e a primeira havia sido a Espanha na quarta anterior. Estou tentando fazer disso um hábito, saio da minha aula de francês e vou direto para a região do Velho Porto, e sento em algum espacinho vazio naquele concreto todo tomado de gente. É claro que as pessoas são mais preparadas que eu, o povo traz cadeira, banquinho, toalha pra sentar no chão, comida, garrafa térmica com café, e até cobertor pra se proteger do ventinho gelado.
Eu já tinha achado a apresentação da Espanha muito boa, mas meus amigos daqui, já acostumados com o campeonato que começou em 1985, não ficaram muito impressionados, não. Mas a Inglaterra pelo jeito fez história: em seus 30 minutos de apresentação, sem pausa nenhuma, ia arrancando palmas e assobios da platéia a cada ousadia pirotécnica.
E está só começando!

segunda-feira, 25 de junho de 2007

Lëon

25 de Junho: daqui pra frente o Natal mais perto é o próximo, e não o anterior. Não que eu goste muito das festividades de fim de ano em geral, às vezes acho que passei da idade, mas o final do ano passado foi especialmente estranho, e não muito divertido. Eu tinha acabado de chegar em Montréal, as estações haviam mudado, nada havia mudado, mas eu sabia que alguma coisa tinha acontecido, estava tudo assim, tão diferente.
Passado tanto tempo, tanta coisa, mais do mesmo, sempre, é bacana ter horizontes evoluindo. Como um bom pessimista que sou mas de que não me orgulho, e meus amigos disso sabem, eu tenho a impressão de que a vida normalmente não melhora muito com o tempo; mas hoje, na ponta dos pés, forçando os olhos, enrugando o nariz e fitando lá longe, a visão é bem melhor do que no Natal passado.

domingo, 24 de junho de 2007

São João

Sábado à noite, véspera do Dia de São João, feriado mais importante do Québec, as festas já haviam começado, e as ruas e parques foram tomadas por beberrões pintados de azul carregando bandeiras enormes, e crianças com tatuagens da flor-de-lis no rosto, e mães carregando recém-nascidos com bonezinhos com a bandeira do Québec, molecada fumando maconha, e velhinhos e velhinhas de mãos dadas bebendo aos soprinhos vinho e champagne em copinhos de plástico, e um ou outro brasileiro tonto perdido na multidão, tentando entender um pouco mais do patriotismo que faz esse povo todo tão unido, e mais especialmente neste específico dia.
No sábado à noite fui para Repentigny, uma cidade aqui perto, no show dos Cowboys Fringrants, um grupo local bem conhecido, e o domingo eu passei no parque Maisonneuve, onde ia ser a festa de verdade. Gente aos montes, o dia inteiro, comendo porcaria, dançando ao som de grupos ao vivo tocando música local, bebendo muita cerveja, e aproveitando o sol. À noite, os discursos políticos, as músicas tradicionais, as homenagens, e as bandeiras azuis, onipresentes, de todos os tamanhos, num mar a perder de vista para qualquer lado para que se olhasse.

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Verão

E de repente é verão. E com ele muita coisa acontece cá por essas bandas. Dias muito longos, um monte de gente na rua, turistas saindo pelo ladrão, sair na rua de havaiana, bermuda e regata, dormir no sol sem camisa na grama da faculdade antes da aula, praia, os filmes infantis no cinema, música, parques, parques de diversão, fogos de artifício, isso aqui não pára um minuto! Difícil é dar conta de tanta coisa boa!

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Ponto de vista

Minha casa, numa tarde qualquer de final de primavera, com a nuvem branca de pólen que cai incessantemente nesta época do ano, como uma neve leve que dança em redemoinhos de vento e nunca derrete.

domingo, 17 de junho de 2007

Explicação

Os seis posts que eventualmente vão aparecer acima foram concebidos mentalmente nas datas em que constam suas publicações, mas na verdade foram disponibilizados ao grande público com atraso, por conta da falta de tempo desta equipe nestes tempos atribulados.
Como muito tempo se passou sem novas publicações, e por conta das dezenas de milhares de visitas diárias, serão disponibilizadas esses novos posts paulatinamente, para que os hamsters que energizam os nossos servidores não fiquem sobrecarregados com o excesso de visitantes, que no passado já causou instabilidade e algumas horas de indisponibilidade deste folhetim eletrônico. Obrigado pela compreensão, atenção e audiência. Continuem conosco.

sábado, 16 de junho de 2007

Ousadia

Entrando no clima de euforia com o calor que anda fazendo, tomei coragem para fazer algo ousado: sair de casa de manhã para ir trabalhar sem nenhum casaco ou jaqueta, só camiseta. Mas me esqueci do importante fato que esta mesma emoção que me contamina atinge os locais à enésima potência fatorial. Ou seja, entro no escritório e fico batendo os dentes aqui com o ar-condicionado ligado no máximo. Ainda não adotei a tática de uma colega também friorenta, que tem um aquecedor embaixo da sua mesa, mas voltei ao hábito de vir trabalhar melhor agasalhado.
Mesmo quando o clima ajuda, os homens estragam tudo.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Paz

An eye for an eye only ends up making the whole world blind.
Mahatma Gandhi
No Índice de Paz Global, do grupo Vision of Humanity, o Canadá aparece na oitava posição mundial, dividindo o topo do ranking com boa parte da Europa ocidental. Aqui, segundo os dados coletados para o estudo, o nível de violência é muito baixo, e o respeito aos direitos humanos tem a maior pontuação possível. Também contribuiu para o bom resultado as forças canadenses envolvidas no processo de paz no Afeganistão, nos Bálcãs e no Haiti (onde o Brasil lidera as forças internacionais).
O Brasil ocupa a 82ª posição no mundo, e a 14ª na América Latina.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Re-resolucionando

Never confuse movement with action.
Ernest Hemingway
Os cinco passos nas tomadas de qualquer decisão são: (1) identificar o problema ou oportunidade; (2) analisar o problema; (3) propor e avaliar soluções; (4) implementar a decisão; (5) reavaliar a implementação e tomar medidas corretivas constantemente.
Hoje são seis meses que cheguei no Canadá, e aproveito para revisitar as minhas resoluções iniciais, para entender o que eu posso fazer para tentar seguir ao máximo o curso inicialmente planejado.
Meus avanços em francês ainda estão lentos, porém constantes, e é este o quesito que mais me insatisfaz. Estou fazendo aula particular duas vezes por semana, escuto as notícias e entrevistas no rádio indo para o trabalho, antes de entrar em aula, e voltando da faculdade. Morando com um local, ele só se dirige a mim em francês, e eu tenho a liberdade de pular para o inglês quando em dúvida para que o fluxo da conversa não seja fatalmente afetado. Mas trabalhando e estudando em ambientes 100% anglófonos não me ajuda a deslanchar de vez, e a minha timidez e preocupação em estar certo ainda me segura.
Meu emprego me paga as contas de do mês, e ainda me garante eventuais pequenos luxos. Apesar do alto custo de vida em Montréal e excesso de impostos no Québec, meu salário me banca até o fim do mês, e ainda sobra um pouquinho para meus planos futuros. Já voltei a juntar dinheiro para a minha aposentadoria, e já consigo planejar meus gastos mensais para poder eventualmente comprar alguma coisa mais cara.
Estou me dedicando muito à pós-graduação, e se dinheiro e tempo não fosse um problema eu estudaria em tempo integral.
Na pós, no trabalho, em casa, estou conhecendo pessoas sempre, e criando relações que parecem inclusive que vão durar algum tempo. Sendo um pouco anti-social, sempre fugi um pouco do excesso de gente na minha vida, e sempre mantive no mínimo o número de amigos no meu círculo. Cachorro velho, meus esquemas ainda são os mesmos, mas tenho tentado não me afastar tanto das pessoas.
O blog tem se mantido ativo, assunto não falta, mas sobra preguiça para discorrer sobre tantas coisas sobre as quais gostaria de articular.
Tive um carro no começo do ano, período em que eu não podia chegar no trabalho de ônibus por conta dos horários loucos em que eu trabalhava na época, mas depois disso ele virou artigo de luxo, e eu decidi que outras coisas têm mais prioridade na minha lista de aquisições e gastos fixos. Durante a semana, o metrô me leva para o trabalho mais rapidamente, por menos dinheiro.
Continuo inativo fisicamente desde que cheguei. Andei me desbravando por um ou outro esporte novo por aqui, mas ainda não tenho disposição para a constância e rotina de me cuidar.
Continuo conversando frequentemente com o pessoal do Brasil, mas parece que quando a rotina se instala nos dois lados do mundo, o assunto encurta.
No fim das contas, estou seguindo meus planos, mas acho que preciso um pouco mais de ousadia, pois ainda sinto como se tudo estivesse no rumo, mas a tímidos passos. Com tanta coisa a ser feita e conquistada, e tanta ansiedade para dar conta de tudo, preciso passar para mais ação. Vivendo, veremos.

sábado, 9 de junho de 2007

Grande prêmio

Final de semana de Fórmula 1, a paixão pelos carros e o calor e sol forte fizeram pipocar de repente os bonés vermelhos da Ferrari, alguns nas cabeças de motoristas em suas Ferraris também vermelhas. Um esporte para poucos mesmo por aqui, mas mesmo os que não gostam ou que não podem bancar vão aproveitando o clima de euforia.
Ontem passei pela Rue Crescent, no centro, onde acontece o Festival do GP do Canadá. Marmanjos tirando fotos com mulheres cobertas por anunciantes somente em suas partes pudorentas, palco com música ao vivo e muita alta, alta classe de Montréal tomando champagne gelado em baldes de prata nos terraços dos bares, povão lá embaixo bebendo cerveja cara e quente, e apreciando os motores dos brinquedinhos em exposição.

domingo, 3 de junho de 2007

Ponto de vista

Avenida McGill College, Montréal, enfeitada para a primavera em um sábado de sol.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Quo vadis?

Ce qui sauve c'est de faire un pas. Encore un pas. C'est toujours le même pas que l'on recommence...
Antoine de Saint-Exupéry
No Brasil, eu falo inglês fluente; no Canadá eu não falo francês direito. No Brasil, eu me formei em uma universidade grande e reconhecida; no Canadá, eu estudei em um país de terceiro mundo de onde não se conhece nada sobre a educação. No Brasil, eu tenho experiência de trabalho em grandes empresas; no Canadá, meu histórico de empregos é praticamente ignorado. No Brasil, família, amigos, à disposição; no Canadá, meus botões. No Brasil, a minha cultura, o meu jeito; no Canadá, sempre uma nova dança.
Aqui são novos desafios, diários, eternos: aprender, conhecer, entender, observar, adaptar-se, esforçar-se. Muitos passos, uma longa caminhada solitária na tentativa de conquistar muito do que eu já tinha. Cada passo é sempre o primeiro da jornada, mas sempre o mesmo passo. E em cada um dele, muitas pedras, novas pedras. E caminhando vou.

domingo, 27 de maio de 2007

Ponto de vista

Povo da região de Montréal aproveitando o calor na praia de Oca, às margens da junção dos rios Ottawa e São Lourenço.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Preces

Gostaria de agradecer aos leitores desse panfleto eletrônico que se sensibilizaram com a minha situação no abominável inverno do norte distante, e direcionaram suas preces para aliviar o meu sofrimento. Este vai ser um verão e tanto!
Aí eu me pergunto se este ano vamos conseguir mudar os números das estatísticas históricas:

  • 150 - número de dias no ano, em média, em que a temperatura mínima em Montréal atinge níveis inferiores a 0ºC;
  • 12 - número de dias no ano, em média, em que a temperatura máxima em Montréal atinge níveis superiores a 30ºC.
Máxima prevista para hoje: 31ºC. Máxima registrada ontem: 30ºC. Ou seja, estamos desperdiçando os poucos dias de calor, pois eu estou aqui, dentro do escritório, no ar-condicionado.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Clima

E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Chico Buarque
Segundo um estudo de uma ONG britânica, 1 bilhão (!!!) de pessoas vão ser obrigadas a migrar por causa de catástrofes ambientais, conflitos locais, e aquecimento global.
Eu, muito provavelmente, já estou dentro das estatísticas, pois vimbora fugido do pé-de-guerra em que se encontra São Paulo. Mas aí eu fico pensando, será que esse povo vai vir todo pro Canadá também? Eu diria que sim, pois os canadenses não estão colaborando muito, e continuam fazendo poucos canadensezinhos, e com isso vão mantendo a porteira aberta! E com as mudanças no clima, daqui a pouco isso aqui vai ser um paraíso tropical!
Será que cabe todo mundo?

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Festas

Terceira segunda-feira de maio, no Québec: Fête des Patriotes, que comemora a herança dos patriotas das Rebeliões de 1837, que entraram em conflito com a Coroa exigindo democracia através de uma reforma política na então província de Lower Canada.
Exato mesmo dia, no resto do Canadá: Victoria Day, feriado nacional, comemorando o aniversário da Rainha Vitória.
Hoje, em Montréal: um dia lindo, meio friozinho, mas muito sol e céu azul.
E eu aqui, trabalhando feito bobo, com tanto motivo para celebrar lá fora.

domingo, 20 de maio de 2007

Tulipas

Há flores por todos os lados
Há flores em tudo que eu vejo
Titãs
Aproveitei o bom tempo para finalmente visitar a capital federal, onde passei o final de semana com dois amigos. No domingo terminou o Festival das Tulipas em Ottawa, época em que a cidade quase se afoga em tanta flor, em cada canto para o qual se possa olhar nos espaços públicos.
Um pouco de história: na Segunda Guerra Mundial, enquanto a Holanda estava ocupada pelos nazistas, a família real holandesa estava refugiada no Canadá, e a Rainha Juliana estava grávida. As leis daquele país impediriam o seu filho de entrar na linha de sucessão se ele nascesse fora da Holanda. O Canadá estabeleceu então que o quarto do hospital onde estava a Rainha se tornasse um anexo da embaixada holandesa, ou seja, território holandês, contornando assim a regra de sucessão ao trono.
Como gesto de gratidão, a Holanda envia ao Canadá, desde então, 10.000 bulbos de tulipas todos os anos. E como os bulbos não morrem, e voltam a florir ano após ano, tem flor saindo pelo ladrão em Ottawa.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Moeda

Ontem quase tive uma síncope ao voltar para casa do meu curso de francês, mal agasalhado como resultado de um pico espúrio de otimismo com relação ao tempo. Frio úmido, daquele que penetra nos ossos, faz uma reviravolta lá dentro, e sai pelo outro lado, pra continar fazendo estrago. Mas com 50% de chance de neve na noite passada, o cara-ou-coroa acabou caindo do lado bom, e ficamos só com o vento e a chuva.
Segundo estatísticas históricas, Montréal tem em média 150 dias por ano em que a temperatura baixa abaixa abaixo de zero, e 12 dias por ano em que a temperatura alta fica acima de 30ºC. Me mandem um email quando voltar a fazer calor, por favor.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Circuito

Ontem aproveitei o sol forte e ventinho frio para me aventurar no circuito de Fórmula 1 aqui de Montréal. E fui todo cambaleante, com os meus patis novos, tentar me matar dando volta naquela imensidão, enquanto o povo todo me ultrapassava de patins, bicicleta, alguns até à pé! As crianças achavam engraçado a minha falta de jeito, os adultos me davam dicas de como ficar de pé em cima daquele monte de rodas, e todos sumiam lá na frente. Depois de uma volta inteira (levemente roubada, pois peguei um 'atalho' lá pro meio do caminho), eu já estava de língua de fora, bolhas nos pés, seco de sede e molhado de suor. Mas as novas sinapses agradecem.
Detalhe é que o circuito já está sendo preparado para a corrida agora daqui algumas semanas. Os muros estavam sendo pintados com as cores dos patrocinadores, e parte da arquibancada já estava de pé. A Fórmula 1 é mais um dos grandes eventos no verão daqui, e embora eu não seja um grande fã, é bom saber que existe um circuito enorme, com asfalto lisinho, suficientemente plano e fácil de chegar para eu me testar nestes esportes radicais em que eu me meto depois de velho.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Previsão

Tenho que admitir que eu sou um pouco nerd, mas essa superou todas: na noite anterior à entrevista de que falei no último post, sonhei com polimorfismo, um conceito em linguagens de programação orientadas a objeto. Raramente sonho com alguma coisa, acho que nem dá tempo, e na verdade nem sei se sonhei mesmo, mas sei que acordei pensando no tal do negócio. Curioso, aproveitei para pesquisar um pouco e me refrescar a memória.
Não é que me chegando lá, uma das primeiras coisas que me pediram para explicar foi o danado do polimorfismo?
Eu não acredito em previsões, nem em sensibilidades para essas coisas, mas só pra garantir estou dormindo com papel e caneta acessíveis para o caso de eu sonhar com os números da mega-sena alguma dessas noites...

Conhecimento

Semana passada fiz uma entrevista de emprego muito boa em uma multinacional alemã para uma vaga de desenvolvimento de software. A vaga parecia muito interessante, assim como o projeto, e a equipe com quem eu trabalharia. Vendi o meu peixe, falei bastante, tentei impressionar e acho que até consegui, mas segundo os meus entrevistadores eles buscavam alguém com um perfil mais técnico, e que ainda assim tivesse um compromisso com a qualidade, que buscasse a perfeição, que se desse bem trabalhando em times, e tudo mais. Retruquei que eu encaixava muito bem no perfil, mas que só não tinha a experiência tão longa com aquilo que eles estavam buscando: algo fácil de corrigir, portanto. Para dar fim no argumento, eles disseram que não achavam que eu ia me sentir bem na posição. Mal sabem eles do meu emprego hoje...
De qualquer forma, fiquei um pouco mais animado, pois me garantiram que iam me indicar para um outro departamento onde a minha vasta experiência com um monte de coisas desconexas talvez fosse de alguma utilidade. Uma maneira educada de me dispensar, mas ainda assim útil para inflar leve e momentaneamente o ego.
Saber um pouco sobre um monte de coisa aparentemente não é tão interessante quanto saber um monte sobre algo específico. Saber muito, neste caso, é quase o mesmo que não saber coisa alguma.