sábado, 12 de dezembro de 2009

Anonimato

Talvez por ter sido criado em cidade pequena, com família grande e 'influente', eu sempre fui o filho do doutor este e da professora aquela, o irmão de tal e tal, o cunhado de não sei quem, sobrinho do outro lá, primo daquele ali. Era como se todo mundo no meu mundinho soubesse da minha existência; eu me sentia exposto.
É claro que todas as confusões na minha cabeça, e quanta confusão havia!, eu me acreditava vigiado só de receber um oi na rua. Durante um tempo que eu só queria ser invisível, eu não era popular, mas era conhecido.
O assunto vem de eu estar repensando esse blog nesses tempos. Estas publicações me fazem questionar a incoerência entre querer aproveitar a solidão do anonimato e a massagem no ego de ter alguém que lê essas bobagens todas aqui.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Diálogos: a introdução

"Tout être qui connaît un enfer durable ou passager peut, pour l'affronter, recourir à la technique mentale la plus gratifiante qui soit : se raconter une histoire. [...] Toute misère comporte son emblème et son héroïsme. L'infortuné qui peut remplir sa poitrine d'un souffle de grandeur redresse la tête et ne se trouve plus à plaindre."
Amélie Nothomb - Acide sulfurique
- Me explica de uma vez essa história então. Como é que funcionam esses diálogos na sua cabeça?
Em épocas de maior proximidade física, caminhava com o outro pelo mesmo percurso de sempre, volta após volta. O silêncio o traía, estava sempre a pensar, imaginar conversas que talvez nunca existiriam. Era como se sua boca formasse as sílabas, as palavras, as frases, mas elas se recusavam a sair. É claro que havia um pouco de decisão nesta recusa, mas já havia perdido o controle da própria recusa, e não conseguia mais evitar o mutismo.
- Não é nada tão complicado - começou a responder, tentando convencer a si próprio mais do que convencer o outro. Quando eu estou pensando, normalmente eu me pego pensando numa conversa com alguém, e fico imaginando essa conversa.
- Lembrando de uma conversa que você já teve com uma pessoa qualquer, você quer dizer?
- Não, não é lembrança. Eu imagino como se desenrolaria um bate-papo com alguém.
Na sua mente era uma falação constante. Papo furado, de um tipo despretensioso, que vai andando meio que sem rumo, tropeçando e caindo em outro assunto. Às vezes virava papo sério, desses a evitar a todo custo e que terminam com alguém triste. E discutiam também o silêncio, essa mesma discussão de agora ao telefone, e o primeiro defendia-se também em pensamento, e o raciocínio era que as palavras eram supérfluas quando se conhece alguém tão bem. Era uma péssima desculpa, e sabia disso, mas na sua cabeça o outro concordava.
- Daí no seu mundo das ideias você fala algo pra essa pessoa, e inventa o que ela te diria de volta?
- Não é um exercício de invenção. Eu me imagino trocando uma idéia com meus amigos, com as pessoas do trabalho, com a minha família. Daí eu já sei um pouco o que as pessoas vão dizer - mordeu o lábio para tentar corrigir a frase, mas já era tarde demais, e sorriu ao ver-se pego no argumento ruim.
- Somos todos tão previsíveis à sua volta?
Mas andando em silêncio o outro não concordava. E também não concordava com a pressa, que às vezes convém ter, como dizia o primeiro. E com a diferença de opinião e a diferença de passo se distanciaram. No mesmo circuito fechado, eventualmente se cruzavam, e se deliciavam com o encontro, e se separavam de novo, cada vez por mais tempo.
- Você cria mentalmente uma conversa com uma outra pessoa, até quando ela está do seu lado de verdade? - o outro continuou, sem esperar resposta para a última pergunta.
- Sim, às vezes acontece. E o que eu quis dizer antes é que quando se conhece alguém não é difícil saber como um papo fluiria.
- E mesmo assim você precisa encenar os diálogos antes de tê-los?
- Eu não fico praticando o que vou falar. São conversas que talvez um dia aconteçam, e neste caso, provavelmente serão diferentes do que havia se passado nos meus pensamentos. Isso não é tão anormal assim, já foi até documentado por aí, li um texto uma vez, algo sobre um palhaço qualquer, azul, sei lá, nem lembro...
Ele tinha parado de ouvir, e interrompeu:
- Você já teve um diálogo desses comigo em que discutíamos isso?
Hoje já quase não se veem, mas eventualmente trocam cordialidades pelo telefone, cada um no seu monólogo, às vezes quebrado por algum momento de nostalgia. Despediram-se, e ao desligar o primeiro sabia que toda a conversa já havia se passado na sua imaginação muito antes. O que não trazia conforto, só mais melancolia.

domingo, 25 de outubro de 2009

A semana em Montréal

A luta política das línguas ressurge de tempos em tempos. A famosíssima Lei 101 (La charte de la langue française) estabeleceu em 1977 que a única língua oficial no Québec é o francês. Nas escolas públicas, há uma longa lista de requisitos que um aluno deve possuir para ter o direito de ser educado em inglês. Com isso, muitos pais ficaram descontentes (alguns brasileiros com filhos que eu conheci morando aqui nem admitiam a hipótese do filho não ser educado em inglês), e alguns deles passaram a usar uma brecha jurídica para escapar da situação: os pais matriculavam os filhos em escolas particulares em inglês por alguns meses, e garantiam o direito que a criança tem de terminar de receber sua educação na mesma língua em que começou. Direito assegurado, os filhos eram matriculados no sistema público. Em 2004 veio a lei 104 para fechar essa brecha. Mas essa semana a Suprema Corte canadense declarou a lei 104 inconstitucional, e o Québec vai ter que obedecer e mudá-la, provavelmente tentando chegar num acordo no meio termo.
Eu estou do lado do Québec. A língua oficial é o francês e pronto, mas é difícil acomodar os anglófonos sem deixar alguns de fora, e muitos infelizes. A polêmica continua.

* * *

George Bush deu uma passadinha por Montréal, e causou muita comoção. Ele deu uma palestra no Hotel Reine Elizabeth, do lado do meu trabalho, e havia ruas interditadas, polícia pra todos os lados, e previsão de distúrbios. No escritório, recebemos um e-mail avisando que as manifestações poderiam atrapalhar o trabalho, e eu até fiquei tentado de ir lá jogar um sapato nele, mas achei melhor ficar quietinho na minha.

* * *

E essa semana nevou! Eu nunca paro de me impressionar como as pessoas ainda se assustam com isso. É como se durante o verão a população se esquecesse que o inverno existe, que ele é longo, e que a neve é abundante. Alguns parecem esperar que pularíamos o frio todo e chegaríamos magicamente na primavera. No trabalho, ficou um bando gente nas janelas, bebericando café, e contemplando o fenômeno.
Rapidinho mandei uma mensagem de texto pra Gabi, e nós devíamos ser os únicos contentes com a situação. A neve quer dizer que daqui a pouco vamos esquiar!

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Tango

Eu e a Gabi, dançando tango. Outras fotos nossas aqui.
Domingo de chuva, frio, vento, e lá vamos eu e Gabi cruzar a cidade para irmos para o nosso ensaio de tango. Desde que começamos o segundo nível, e que temos direito a três horas de prática aos domingos para complementarmos a aula na segunda, sempre aparece alguma desculpa, e a gente não vai. Desta vez, desculpa não faltava, mas com medo de fazermos feio ao dançar com outras pessoas na aula, decidimos nos obrigar.
Mas como desgraça pouca é bobagem, o ensaio daquele dia havia sido cancelado, e obviamente que só descobrimos isso chegando lá. Gordos que somos, precisávamos de algo para nos alegrar: para não perder a viagem, demos uma passadinha no Yeh! para tomar um frozen yogourt e voltar para casa de estomâgo cheio, consciência pesada, mas alma lavada.

Adivinha qual pote é de quem.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Ponto de vista


Place Ville Marie [mapa], no meio da névoa matinal que andava se instalando nesses dias chuvosos e de frio.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Dia ruim...


Bad day, looking for a way,
home, looking for the great escape.
Gets in his car and drives away,
far from all the things that we are.
Puts on a smile and breathes it in
and breathes it out, he says,
bye bye bye to all of the noise.
Oh, he says, bye bye bye to all of the noise.

Hey child, things are looking down.
That’s okay, you don’t need to win anyways.
Don’t be afraid, just eat up all the gray
and it will fade all away.
Don’t let yourself fall down.

Bad day, looking for the great escape.
He says, bad day, looking for the great escape.
On a bad day, looking for the great escape,
the great escape.
Patrick Watson - The Great Scape

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Reunião

Este ano tentei usar a mesma desculpa do ano passado:
- Não posso ir, tenho aula na faculdade.
Mas dessa vez houve a réplica que eu não esperava:
- Nós vamos marcar então para um dia em que você possa ir.
Aí não teve como escapar, né? E aos poucos fui aceitando a idéia de ter que ir à reunião de condomínio aqui do meu prédio, mas continuei odiando-a com a mesma intensidade.
Afinal de contas, o que há a se discutir? São só quatro os apartamentos; não temos elevador, e quase não temos área comum; não há empregados do condomínio; alguém já paga a conta de eletricidade relativa à iluminação e caleifação dos corredores e escadas, e cobra dos outros sua justa parte. Eu já queria dar um cheque e acabar com isso, sem ter que fazer social, sorrir, ou fazer de conta que sou simpático.
Mas daí fui lá descobrir. Obviamente que o vizinho tinha me falado o horário errado, e eu sou o primeiro a chegar na casa dele, com meia hora de antecedência. É importante ressaltar que nunca cruzo com nenhuma dessas pessoas, então nem a cara deles eu conhecia quase. E daí começa aquele papinho de elevador: o que você acha da área, o que você faz da vida... Dois minutos depois o silêncio desagradável motiva o meu anfitrião a ir buscar os outros vizinhos, e eu respiro aliviado.
A única emoção em pauta foi que eles queriam pintar as paredes das escadas. Com um custo previsto de $1200. Eu quase engasguei no meu copo d'água, e o vizinho que veio com a idéia já veio se explicando: a pintura atual está feia, é de baixa qualidade; mão-de-obra e material ficariam em $600 cada. Ainda não consegui desengasgar.
Trezentas pilas para cada um para trocar o branco das escadas por outro branco mais chique? Tive que me posicionar, e foi o único momento em que falei, então as pessoas me ouviram: eu acho muito caro, e prefiro esperar um pouco para fazermos esse investimento! De onde essas pessoas acham que eu posso tirar tanta grana pra tal inutilidade? Ficou combinado então que na primavera nós voltaríamos a nos falar. Preciso achar outra desculpa até lá, ou então vender o meu apartamento.
No final das contas não foi tão ruim assim, as pessoas se esforçavam até mais do que eu para serem simpáticas, fiquei até impressionado. E na hora de ir embora, um outro cara estava mais ansioso do que eu para sair de lá, e já estava abrindo na porta e mandando um 'bonne soirée' pra todo mundo antes mesmo de eu poder cumprimentar o anfitrião.
Até ano que vem, pensei baixo.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Canal

Por um curto tempo, tive uma bicicleta neste verão. Que não durou muito mais que um mês: estacionada na frente da casa da Nadia enquanto jantávamos uma noite, alguém quebrou o cadeado e levou ela embora. Todos me apareceram com uma história de roubo de alguma magrela, e passei a acreditar que Montréal é a meca dos ladrões biciclísticos. Lição aprendida, cuidados serão redobrados da próxima vez, mas resolvi não comprar uma outra até o verão que vem, pois os tempos não estão para tantos luxos, nem são os verões longos o suficiente.
Durante as poucas semanas que pedalei até o trabalho, de segunda à sexta, sob qualquer interpérie que o tempo nos trazia, já me apaixonei por esse modo de transporte. Montréal é plana como uma panqueca, com ciclovias para todos os lados, e motoristas até que bem educados. Para completar, estou a dois minutos do Canal Lachine, cuja ciclovia que me leva até o centro, sob árvores, ao lado da água, sem nem ter que passar por ruas, semáforos, ou dividir espaço com carros.
Estas são algumas fotos do meu caminho matinal, ao longo do Canal. Ou no Picasa.


segunda-feira, 27 de julho de 2009

Profecia

Final de semana passado estava eu em Nova Iorque, parado numa esquina e olhando o trânsito da Quinta Avenida, sem intenção de cruzar, só pensando na vida enquanto esperava as meninas passarem por mais uma loja de roupas. Neste estado de inatenção eu demorei para perceber que uma mulher estava parada do meu lado, olhando fixamente para a minha cara:
- Eu sou vidente. E vejo novos começos na sua vida.
- Mas não há sempre novos começos na vida de todo mundo?
- Ultimamente, na sua vida, não. Mas continue pensando positivo.
E atravessou a rua.
Talvez tenha sido o (re)começo do blog que ela tenha profetizado, mas eu estou achando que não... Mas enquanto nada se confirma, vamos escutando um fado e vendo algumas fotos da viagem.

domingo, 5 de julho de 2009

Eu não quero trabalhar!

Depois de duas semanas cortadas ao meio por causa de dois feriados na quarta-feira, a previsão de cinco dias de trabalho consecutivos já começa a me deprimir. Ainda bem que aqui não passa Fantástico, senão a musiquinha seria suficiente para me fazer pular da ponte Jacques Cartier.
Enquanto isso, me agarro à ideia de que os próximos finais de semana serão interessantes: um chalé alugado no meio da floresta em um grupo de 10 amigos, e um bate-e-volta de carro pra Nova Iorque uma semana depois. No meio de tudo isso, o início das minhas aulas de tango!
E para continuar no clima, Pink Martini cantando Édith Piaf: